Capítulo Oito
EM JANEIRO de 1910, o mundo industrial foi subitamente acometido de
grave crise de febre da borracha. Após dois anos de aumentos de preço
firmes, porém gradativos, uma alta sem precedentes no valor da borracha
fez com que os capitalistas de todo o mundo se lançassem a investir apres-
sadamente na produção da borracha bruta. Nos meses que se seguiram,
centenas de companhias, representando milhões de libras esterlinas de ca-
pital, surgiram literalmente da noite para o dia. A India Rubber World,
sempre tomando o pulso do mercado da borracha bruta, instava com seus
leitores que não hesitassem em aceitar adquirir borracha a 2 dólares a libra,
advertindo ser pouco provável que os preços viessem a cair em futuro pró-
ximo. De fato, tudo indicava que a loucura só continuaria a aumentar: no
correr dos meses de abril e maio, com os preços aproximando-se da marca
de 3 dólares, apenas os investidores britânicos incorporaram 163 firmas
para a exploração de seringueiras, silvestres ou cultivadas, em 28 diversos
países.! Em Belém, o presidente da Associação Comercial declarava, com
moderação característica, que “o estado da indústria da borracha não pode
ser mais lisonjeiro”, e as casas aviadoras, recrutando ansiosamente novos
trabalhadores e aumentando seu capital, competiam renhidamente por uma
fatia dos lucros que caíam do céu.?
Logo, em maio de 1910, a febre estacou. De início, pareceu simples-
mente natural que os preços estabilizassem e até mesmo caíssem um pouco,
depois de quase dobrarem em menos de quatro meses. Mas ninguém estava
preparado para o violento mergulho que deu o mercado da borracha bruta
nos meses restantes do ano de 1910, chegando a menos de um dólar e vinte
centavos já em novembro. De janeiro a fevereiro do ano seguinte, por algum
tempo pareceu que os preços se recuperavam de sua queda repentina, mas
em março voltaram a desabar (ver Figura 3). E essa queda, longe de um
simples interlúdio, acabou sendo o começo de uma decadência de dez lon-
gos anos que iria aleijar a economia extrativa da Amazônia.
Parece perfeitamente compatível com o caráter particularmente dramá-
tico da expansão da borracha da Amazônia o fato de que os preços atingiram
seu ponto mais alto no exato momento em que o mercado da borracha
silvestre oscilava à beira do colapso. Para tornar pior o que já estava mau,
a causa real dessa febre de última hora da borracha era exatamente aquilo
que iria desferir o golpe fatal na economia extrativa da região. Após vinte
anos de trabalho dedicado de botânicos e de empresários britânicos, as
plantações de hévea na Ásia tinham, afinal, começado a produzir borracha
em quantidades consideráveis. À consegiiência imediata foi a frenética cons-
tituição de corporações desejosas de garantir uma fatia da nova prosperidade
da borracha, e Esses investimentos empirraram para cima Os preços da
borracha em todo o mundo industrial” Seu efeito final, porém, foi, ao
mesmo tempo, consolidar as bases financeiras da ainda incerta economia
de cultivo, e derruir as do negócio da borracha silvestre.
Observadas retrospectivamente, as circunstâncias que cercaram a quebra
de 1910 parecem radicalmente diferentes das que haviam gerado as crises
anteriores. Sem o benefício da perspectiva histórica, porém, a maioria dos
amazônicos não percebeu imediatamente que a ruína se anunciava. Ão invés
disso, a elite paraense viu inicialmente o colapso como uma depressão par-
ticularmente grave dos preços, não diversa das que a comunidade comercial
já sofrera em 1888-89, 1900-1 e 1906-7. É bem verdade que essa queda
de preços de agora ocorria durante um período de taxas de câmbio estáveis,
mas o mesmo ocorrera com a queda imediatamente anterior. Assim sendo,
parecia ainda mais razoável responsabilizar as flutuações do mercado a curto
prazo, ou a especulação baixista, e a reação preliminar da elite da borracha
a esta última crise foi solicitar, ao governo estadual e federal, a decretação
de medidas tomadas durante a “depressão” anterior
À primeira etapa do programa constava da chamada “Emenda Chaves”,
medida decretada em outubro de 1908 e destinada, especificamente, a com-
bater a especulação pelas casas exportadoras. Segundo o que dispunha, todos
os industriais ou importadores estrangeiros que adquirissem borracha dire-
tamente de um “sindicato” de produtores organizado na Amazônia, teriam
asseguradas reduções nas alíquotas de imposto de exportação, segundo uma
escala progressiva, de tal modo que os preços mais altos seriam beneficiados
com taxas alfandegárias menores. Além disso, os deputados do Pará haviam
definido a categoria “produtores” de maneira suficientemente vaga para
permitir que a maioria dos aviadores se credenciasse como tais, e haviam
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induzido o governo federal a estender a emenda Chaves também à borracha
proveniente do Acre. O resultado final foi um plano que fazia lembrar
muito o da Companhia Mercantil do Barão de Gondoriz, porém ainda
menos prático ou eficiente. Quando promulgada, a medida provocara uma
reação irritada por parte dos comerciantes estrangeiros, que se referiram a
ela como uma “espada de Dâmocles” pendendo sobre suas cabeças. Uma
vez mais, porém, seus protestos mostraram-se desnecessários, uma vez que
os aumentos de preços continuados no correr dos dezoito meses seguintes
se incumbiram de tirar a força do incipiente movimento “sindical” dos
aviadores.”
Em sua concepção original, a emenda Chaves também era lamentavel-
mente inadequada para combater a crise mais ampla causada pela quebra
de 1910. Scgundo as disposições em vigor, o exportador gozava de um
desconto no imposto somente quando o preço de venda atingia 5$245 o
quilo — mas em meados de 1911 as cotações haviam caído bem abaixo
desse mínimo e, num mercado em baixa, a economia de alguns pontos
porcentuais nas alíquotas de imposto dificilmente levaria o comprador es-
trangeiro a pagar mais. Era evidente que a emenda Chaves, ainda que bem
intencionada, não ia sanar os males da economia da borracha.
Os paraenses, cônscios das deficiências dessa emenda, depositaram suas
esperanças na segunda etapa do programa de combate à queda dos preços.
Com uma baixa de tal gravidade, logo se tornou evidente que a culpada
era uma flutuação “real” do mercado, e não uma simples especulação bai-
xista. Ássim sendo, a transferência das atividades de exportação dos expor-
tadores estrangeiros para estabelecimentos locais pouco efeito teria sobre as
cotações de preços. Estratégia muito mais promissora seria um sistema de
sustentação de preços, ou um programa de “valorização”, tal como o que
os paulistas e mineiros (com apoio federal) criaram para as exportações do
café, pelo Acordo de Taubaté, de 1906. Já em 1907, Augusto Montenegro
telegrafara ao presidente Afonso Pena propondo a instalação de uma agência
do Banco do Brasil em Belém, a qual arremataria todos os estoques de
borracha, a preços acima do valor de mercado, e os conservaria até que as
cotações tivessem subido. “Apenas a intervenção do governo federal”, afir-
mava Montenegro, “pode conseguir aliviar os efeitos dessa crise.” Mais de
um ano se passou antes que tal proposta fosse implementada, e ainda assim
parcialmente — para grande irritação da elite política e comercial do Pará,
que acusava o governo de favoritismo “sulista” — , momento em que os
preços já haviam subido a um ponto em que a ajuda federal se tornava
supérílua.”
245
Logo em seguida à queda de preços de 1910, os comerciantes e políticos
do Pará retomaram sua campanha por um programa de valorização admi-
nistrado pelo Banco do Brasil — e a gravidade desta última crise tornava
especialmente premente seu renovado apelo. A Associação Comercial de
Belém vinha sustentando há muito tempo que a borracha, e não o café,
era um candidato natural à sustentação de preços pelo governo federal, uma
vez que a Amazônia detinha um quase-monopólio de sua produção. Além
disso, o produto amazônico constituía um bem essencialmente indispensá-
vel à vida industrial, ao passo que o café era um luxo relativo; e “ao contrário
do café, cuja superprodução, não só neste país como no estrangeiro, justi-
ficava sua desvalorização concomitante, nossa borracha, (...) com o cons-
tante crescimento e multiplicação de suas aplicações, tornou-se um bem
raro e precioso”*
Em tais circunstâncias, uma queda de preços, com todas as suas sinistras
ramificações, só podia ser atribuída a uma redução da demanda a curto
prazo, exacerbada por uma perniciosa especulação. Ambos esses problemas,
supunham os paraenses, podiam ser facilmente resolvidos por meio da va-
lorização. Em conseqiiência, qualquer hesitação por parte do governo fe-
deral devia ser interpretada como demonstração de completo desprezo pelo
bem-estar da região. E um tratamento desse tipo seria considerado espe-
cialmente censurável, em vista do quanto o país já ganhara, em receitas e
divisas, com o negócio da borracha. Como indagava, queixoso, um comer-
ciante local ao governo central, “Por que recusar a esta infeliz região a
proteção que merece pelo muito que ela tem concorrido já para a prospe-
ridade do Brasil”?
A primeira incursão do Banco do Brasil no campo da compra de bor-
racha foi de fato muito bem-sucedida. Em 1908, o banco comprou com
atraso uma pequena quantidade de borracha, e a alta de preços que se seguiu
permitiu-lhe obter um lucro respeitável. Estimulado por essa experiência,
na segunda metade do ano de 1910, o banco começou a mostrar-se sensível
às constantes pressões das organizações públicas e privadas, aceitando “de-
pósitos” em borracha como garantias para empréstimos. Além disso, con-
cedeu crédito regular, à taxa extremamente razoável de 9% de juros, a
estabelecimentos comerciais financeiramente desfalcados. Em consegiiên-
cia, no correr dos seis meses seguintes, apenas a agência de Belém acumulou
2.435.763 quilos de borracha, cerca de quarta parte da safra anual de bor-
racha do Pará. Infelizmente, todo um ano após a queda inicial, os preços
não mostravam ainda sinais de recuperação, e o Banco do Brasil, temeroso
de que estoques adicionais só iriam sobrecarregá-lo com mais borracha su-
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pervalorizada num mercado em baixa permanente, suspendeu essa fase de
suas operações, !º
À comunidade paraense reagiu a essa decisão com a agressividade que
era de se prever. O governador João Coelho acusou o banco de se retirar
do mercado exatamente no momento em que sua estratégia parecia estar
tendo êxito — argumento em apoio do qual não apresentou qualquer pro-
va.!! Ao mesmo tempo, a Associação Comercial mostrou-se ainda muito
mais ofendida por essa e por outras desconsiderações demonstradas pelo
governo federal e seus órgãos. Numa incomum explosão emocional, um
folheto amplamente divulgado pela associação indagava “Por que razão ta-
manho ódio e tão perstinaz perseguição a este Norte infeliz””!2 Porém, nem
todos os paraenses que se preocupavam com o destino do negócio da bor-
racha assumiram essa posição. Jacques Huber, botânico francês que vivia
há muito tempo na Amazônia, regressou de uma viagem de pesquisa às
plantações de seringueiras da Ásia convencido de que a única solução era,
não a valorização, mas o cultivo da hévea.”
À elite paraense pode ter ficado muito agastada com a precipitação da
decisão do Banco do Brasil; mas, com a continuidade da decadência, até
mesmo os mais intransigentes defensores da valorização pararam de afirmar
que a sustentação dos preços era a única resposta. Os argumentos em favor
do apoio federal sempre se haviam baseado no pressuposto de que a Ama-
zônia dominava, e continuaria a dominar, a maior parcela da oferta mundial
condição essencial para a valorização. Porém, ano após ano,
a florescente produção de borracha bruta proveniente das seringueiras cul-
tivadas reduzia drasticamente a parte que cabia ao Brasil nesse mercado (ver
Tabela 9). Na verdade, nem os próprios cultivadores britânicos poderiam
ter previsto quão rapidamente seus empreendimentos na Ásia iriam superar
a Amazônia como fonte principal de borracha bruta do mundo. Em 1905,
a produção total das plantações do Oriente não ia além de 171 toneladas;
em 1910, essa cifra subira para 8.753 toneladas, ou seja, 12% da oferta
mundial. Por si só, esse já seria um aumento impressionante; porém, é quase
nada, se comparado aos saltos quantitativos que caracterizaram a produção
da borracha cultivada no correr dos cinco anos seguintes. Em 1913, as
plantações asiáticas já superavam folgadamente a Amazônia e, em dois anos
mais, as colônias britânicas, holandesas e francesas contribufam com mais
de dois terços da oferta mundial de borracha.
Progresso tão célere ultrapassou até mesmo os mais arrebatados sonhos
de Henry Wickham, o aventureiro britânico responsável pelo “furto de
sementes” de 1876, que conduziu às primeiras experiências bem-sucedidas
da borracha
247
de cultivo da hévea no Jardim Botânico de Kew, na Inglaterra. O pró-
prio Wickham estivera envolvido no negócio da borracha silvestre e sabia
que qualquer aumento substancial de produção exigiria a exploração de
seringais remotos e inacessíveis, bem como a arregimentação de trabalha-
dores a partir de uma população limitada. Ao mesmo tempo, a produ-
tividade das estradas mais antigas iria decaindo, obrigando com isso a
248
marcha constante do comerciante sempre para mais longe, apenas para
manter o mesmo volume de negócios.
Em contraposição, a borracha cultivada quase não apresentava obstáculo
algum à expansão, após o período de cinco a oito anos para as árvores
atingirem a matutidade. E, em termos gerais, as condições nos protetorados
britânicos da Ásia eram extremamente favoráveis às atividades de cultivo:
enormes extensões de terra podiam ser ocupadas sem qualquer burocracia;
direitos de exportação eram baixos ou inexistentes; o transporte se fazia sem
dificuldades e a custos relativamente baixos; e a mão-de-obra era abundante
e sabidamente barata. Não é de admirar, pois, que a área de cultivo da
hévea crescesse de 5.342.000 hectares, em 1905, para 46.174.000 hectares,
em 1910, e, a seguir, para o estarrecedor número de 101.696.000 hectares,
em 1915.ºº Se se calcular uma média de duzentas árvores por hectare, tor-
na-se logo evidente como o cultivo de hévea conseguiu, em tão pouco
tempo, eclipsar a economia da borracha silvestre.
Esmagados por mais esse desafio, nada podiam fazer os paraenses senão
observar como sua região, outrora a única produtora, se tornava uma
participante marginal da economia mundial da borracha. É compreensível
que essa capitulação aparentemente abjeta às forças do mercado interna-
cional tenha levado muitos estudiosos da expansão da borracha a condenar
a elite por sua falta de previdência, espírito empreendedor e criatividade.”
E esse tipo de julgamento nada mais faz do que repetir as avaliações feitas
por observadores da época. Vinte anos antes do colapso, um cônsul dos
Estados Unidos informava ao Departamento de Estado que “não há dú-
vida quanto à praticabilidade ou à enorme lucratividade do cultivo da
seringueira nesta região, mas o fato é que os brasileiros não se lançam a
isso com afinco — e provavelmente nunca o farão enquanto se mantiver
o nível atual da oferta”.'* E por muito que essa afirmação possa conter
de censura é positivamente elogiosa em comparação com o relatório de
um cônsul anterior, que terminava com a observação: “Afinal de contas,
a empresa nacional está agora menos desenvolvida do que antes, por ser
este povo tão perdulário e indolente”.!º Ademais, esse tipo de injúria não
estava de modo algum restrito aos cônsules dos Estados Unidos; em épo-
cas diversas, visitantes ou moradores estrangeiros retrataram a elite pa-
raense como imprevidente, corrupta, presunçosa, retrógrada, dada a lucros
especulativos e temerosa de inovação. Porém, testemunhas da decadência
e, depois delas, historiadores reservaram suas críticas mais contundentes
à evidente cegueira da elite local em relação a progressos essenciais que
se verificavam na indústria da borracha e a sua incapacidade de perceber
249
a ameaça representada pelo cultivo de seringueiras, antes que fosse tarde
demais.
Acusações como essas subestimavam grosseiramente a perspicácia da elite
regional, bem como a gama de dificuldades que qualquer tentativa de cul-
tivo da seringueira teria encontrado na Amazônia. Tais acusações pressupô-
em também que a elite constituía um bloco essencialmente homogêneo e,
com isso, deixam de levar em conta a variedade de recursos, interesses ou
ideologia presente no seio da classe alta. À comunidade mercantil pode
ter-se satisfeito em ignorar a questão do cultivo durante as décadas iniciais
da expansão da borracha, mas houve membros da elite tradicional que,
desde o início, lamentaram abertamente o fato de a região depender de
maneira tão absoluta da seringueira silvestre. Já em 1866, Tavares Bastos
clamava pelo “cultivo regular da seringueira em terrenos e ilhas vizinhas das
cidade e vilas (...)” e predizia que “A lavoura da seringa poderá ser uma
indústria séria e valiosíssima para o Amazonas”. Quinze anos mais tarde,
M. A. Pimenta Bueno, em relatório anexo à mensagem anual do presidente
da província, dizia que “a triste verdade é que a seringueira não foi culti-
vada”, e instava com o governo para que oferecesse “prêmios” aqueles que
cultivassem a hévea.”
Os paraenses também não estavam desinformados quanto aos avanços
realizados pelos britânicos nessa área. O editorial de um número de 1886
de À Província do Pará chamava a atenção do governo e da comunidade
mercantil sobre o que se realizava no estrangeiro quanto ao cultivo da se-
ringueira e censurava os seringalistas e aviadores locais por não explorarem
caminhos semelhantes. O editorial ridicularizava, também, medidas toma-
das pela província do Amazonas para estimular o cultivo da seringueira,
afirmando que o prêmio de um conto pelo cultivo não valia senão como
suborno eleitoral. Porém, mais severa ainda foi 4 Província em sua apre-
ciação sobre o governo paraense, que acusava de “vaidosamente colecionar
elogios”.
Realmente houve alguns seringalistas “iluminados” que investiram no
plantio de seringueiras muito antes que os britânicos entrassem nesse cam-
po. Particularmente na região das ilhas, no Pará, onde as estradas mais
velhas já se haviam exaurido e o rendimento das árvores tinha começado,
de modo geral, a decair, diversos posseiros procuraram substituir suas héveas
esgotadas, ou aumentar o número de árvores em suas propriedades, por
meio do cultivo. Em 1887, Henrique Joaquim de Almeida registrou uma
posse no rio Mapuá, que afirmava incluir 1.100 árvores plantadas. Nesse
mesmo ano, seu vizinho Manoel Francisco de Paula também registrou uma
250
posse contendo “plantações de hévea”. Referências esporádicas ao cultivo
da seringueira continuaram a surgir nos registros de posse de terra no correr
dos quinze anos seguintes, e houve até mesmo notícias ocasionais na im-
prensa local a respeito de seringalistas de rio acima que estavam cultivando
héveas.?? Não obstante, esses empreendimentos individuais raramente iam
além de alguns milhares de árvores, e continuavam sendo excentricidades
em meio à enorme amplitude da exploração da seringueira silvestre. Assim,
em 1904, 4 Província voltava a chamar a atenção para os grandes avanços
feitos pelos ingleses na Ásia e a denunciar a elite local por sua “mentalidade
extrativa” e inércia econômica.
Sem mais palavras, o jornalista Ignácio Moura advertia que a Amazônia
em breve perderia sua preeminência na produção mundial da borracha,
a menos que se realizasse alguma ação conjunta, e rogava a seus compa
triotas que fossem “não apenas exploradores, mas cultivadores”*
Evidentemente, alguns membros da elite local estavam plenamente cons-
cientes do que os ingleses estavam fazendo na Ásia, e de tudo que isso
implicava de alarmante. Contudo, como fregientemente sucede, havia
enorme distância entre a identificação do problema e a implementação da
solução, especialmente quando a solução óbvia exigia apoio oficial maciço.
Até mesmo na Inglaterra, onde o setor privado tinha a seu dispor recursos
empresariais e financeiros insuperáveis, havia sido necessário um certo apoio
governamental para as etapas experimentais iniciais do cultivo da seringuei-
ra. Os paraenses, com capital, crédito e experiência limitados, teriam ne-
cessidade de depender ainda mais intensamente da participação do governo
para o êxito de seus esforços.
Não era provável que tal apoio se concretizasse sob o regime imperial,
uma vez que tanto o Pará quanto o Amazonas ocupavam posições periféricas
na hierarquia do Império. Ao mesmo tempo, a centralização das finanças
públicas resultava em que os governos provinciais possuíam recursos escassos
para empreendimentos econômicos de monta. A queda da monarquia e a
emergência de um sistema político federalista, contudo, pouca melhoria
trouxe para a posição da Amazônia perante o governo nacional. Muito
embora a descentralização permitisse distribuir mais equitativamente a re-
ceita pública, deixou também cada um dos estados com a total responsa-
bilidade pelo financiamento de projetos econômicos ambiciosos. Certamen-
te, dispunha-se de algum recurso federal para esse fim, mas tendo a elite
paulista e seus aliados do Centro-Sul o controle efetivo das finanças nacio-
nais, pequena era a ajuda federal com que se poderia contar para o desen-
volvimento regional — pelo menos no Norte.%
25]
Desse modo, a carga passava para os governos estaduais, cujos funcio-
nários demonstravam uma certa consciência sobre o desejo do cultivo da
hévea. À partir da década de 1880, quase todos os presidentes da província
e governadores do estado do Pará referiram-se de algum modo à necessidade
de se plantar a seringueira. Até mesmo Augusto Montenegro exortou os
paraenses a começarem a pensar a respeito do cultivo da seringueira, enfa-
tizando que “nada nos custa aproveitar as lições que outros paizes offerecem,
plantando a hevea de maneira racional e methodica” é Infelizmente, as
preleções eram gratuitas, mas o cultivo mesmo era dispendioso. Tornou-se
também evidente que as técnicas e as variedades desenvolvidas para cultivo
na Ásia não podiam ser aplicadas indiscriminadamente no ambiente ama-
zônico. De qualquer maneira, o governo de Montenegro, atormentado por
perturbações financeiras causadas pelas sucessivas quedas de preço, não
tinha o menor ânimo de se comprometer materialmente com o plantio da
seringueira.
Os republicanos históricos que antecederam Montenegro também não
se destacaram na ajuda à causa do plantio da hévea, porém por motivos
ligeiramente diferentes. Tanto Sodré quanto Paes de Carvalho tiveram
recursos financeiros e preocupação maior pelo desenvolvimento regional
do que seu sucessor “lemista”, mas nenhum deles demonstrou grande
interesse por um programa de cultivo da seringueira. No contexto histó-
rico em que ocorreu, esse desinteresse não causa espanto. Por um lado,
nem uma só tonelada de borracha cultivada surgiu no mercado antes do
começo do século, de modo que o cultivo não deve ter sido considerado
questão premente durante aqueles governos. Por outro lado, havia o pro-
blema imediato e cada vez mais urgente da escassez de alimentos, bem
como um apoio generalizado da elite a alguma forma de colonização agrí-
cola. Assim, Sodré e Paes de Carvalho gastaram suas receitas e energias
excedentes nas colônias agrícolas, e limitaram seus incentivos à cultura
de hévea às habituais bonificações.”
Apesar da falta de registros a esse respeito, pode-se imaginar que os
governadores republicanos históricos teriam tomado alguma medida mais
consistente sobre a questão do cultivo da seringueira, caso houvesse alguma
pressão por parte de grupos locais interessados em que isso fosse Feito. Afinal
de contas, uma coisa é contar com que o estado apóie ou ajude a financiar
um programa de plantio de seringueiras, e outra, bem diversa, esperar que
ele tome a iniciativa de tal projeto. Por exemplo, os tão alardeados subsídios
aprovados pelo legislativo paulista em favor da imigração — que montavam
a cerca de 42.000 contos entre 1888 e 1904 — resultaram diretamente da
252
pressão exercida pelos cafeicultores de São Paulo, que dominavam inteira-
mente o governo do estado. Porém, não havia forças análogas atuando
em favor do cultivo da seringueira no Pará, O pequeno contingente de
“agricultores” do estado continuava a depender, para seu sustento, de cul-
turas tradicionais, como a cana-de-açúcar e a mandioca, ao passo que os
seringalistas continuavam a obter lucros seguros com as héveas silvestres.
Isso fazia da comunidade mercantil — o setor mais rico e mais bem
organizado da elite da borracha — a única fonte potencial de apoio a
um programa de cultivo da seringueira. É evidente que, mesmo no auge
de seu poder, os aviadores não dispunham de um grau de influência po-
lítica no Pará equivalente ao dos cafeicultores em São Paulo; não obstante,
qualquer campanha arrojada dos comerciantes da borracha certamente te-
ria tido grande repercussão. Contudo, a Associação Comercial sempre de-
monstrou uma evidente falta de preocupação quanto à questão do cultivo
da seringueira. Ainda em 1912, quando a economia da seringueira sil-
vestre caminhava rapidamente para um estado de completo colapso, a
associação continuava não dando quase nenhuma importância ao tema
do cultivo da seringueira.” Naturalmente, membros isolados dessa orga-
nização extremamente heterogênea manifestavam, a intervalos, algum in-
teresse pelo assunto, ou pronunciavam advertências sobre a ameaça asiá-
tica, mas a correspondência oficial, os relatórios e as atas de reuniões da
associação, todos eles revelam certa relutância em enfrentar o problema,
ou mesmo em identificá-lo como tal. À primeira referência explícita aos
seringais cultivados dos britânicos surge em um pronunciamento escrito
em dezembro de 1907, cujo propósito, porém, era documentar a exis-
tência de especulação baixista e fomentar a valorização; a alusão ao cultivo
da seringueira era quase fortuita. Além disso, o autor desse documento
minimizava repetidas vezes a ameaça representada pelas plantações de hé-
vea, afirmando que os usos e aplicações da borracha multiplicavam-se tão
rapidamente que a demanda continuaria a superar a oferta.?
À guisa de explicação para essa posição, que evidencia uma visão estreita
da associação sobre o cultivo da seringueira, é tentador fazer uma extrapo-
lação da história das reações tímidas ou conservadoras dessa organização a
todo um largo espectro de questões políticas e financeiras. Contudo, mais
pertinente é recordar que o grosso dos membros da associação era de avia-
dores, que dependiam, para sua sobrevivência, de um determinado conjunto
de relações comerciais, e que estavam razoavelmente certos de que o cultivo
disseminado da hévea iria alterar ou destruir exatamente aquelas relações
que constituíam os fundamentos de suas operações comerciais. Talvez o
Á longa decadência 253
traço mais marcante do negócio da borracha silvestre fosse o de fazer as-
cender o intermediário a uma posição cuja importância não se verifica nas
sociedades agrícolas — posição que o aviador arriscava perder caso a Ama-
zônia fizesse sua transição para o cultivo da hévea. Assim, não surpreende
que o principal órgão representativo da comunidade mercantil jamais fo-
mentasse ativamente o cultivo da seringueira.
Em poucos anos, essa política de inação começaria a cobrar seu preço
dos membros da associação. Mas, nesse entretempo, havia grande número
de racionalizações que os aviadores podiam empregar para amenizar seus
temores quanto à concorrência da seringueira cultivada. Em primeiro lugar,
vinha a crença popular de que o látex da seringueira cultivada produzia
borracha de qualidade e elasticidade inferiores. A seguir, a afirmação comum
de que o crescimento da indústria de pneus, bem como de outras impor-
tantes empresas consumidoras de borracha, tornariam praticamente impos-
sível a superprodução.?!
Os comerciantes de borracha da Amazônia não precisavam buscar mui-
to longe a “confirmação” de suas opiniões. Ali mesmo, Augusto Monte-
negro abria sua mensagem ao Congresso, de 1907, com a garantia de
que “não nos devem inquietar demais as plantações da preciosa árvore
que actualmente se fazem na Ásia. Dadas as condições especiais do valle
amazônico, a regularidade que cada vez mais se estabelece no corte da
hévea, as grandes extensões de seringaes ainda virgens, as necessidades
crescentes da industria moderna, não devemos considerar o que se faz
fóra daqui senão como lições que convem estudar, ensinamentos que
urge seguir, experiencias que é preciso tentar”. À luz dos acontecimentos
posteriores, essa avaliação da situação pelo governador assume aspecto tra-
gicômico. Mais chocante ainda é em que medida contemporâneos seus
bem informados, e sem nenhum tipo de viés que pudesse toldar seu dis-
cernimento, faziam eco aos sentimentos de Montenegro. Ainda em 1910,
a India Rubber World, que se proclamava porta-voz da área, censurava
seus leitores por estarem investindo precipitadamente em empreendimen-
tos de cultivo da hévea, e por presumirem levianamente que a borracha
cultivada expulsaria o produto amazônico do mercado. Na verdade, em-
bora a revista aplaudisse toda atividade de cultivo, insistia, apesar disso,
em que a seringueira silvestre manteria sua preeminência por muitos anos,
auxiliada pelas “grandes corporações que estavam sucedendo ao trabalho
fortuito de seringueiros isolados e irresponsáveis”.
Uma mudança sensível nas atitudes do governo ocorreram com a trans-
ferência das rédeas do poder de Montenegro para João Luiz Coelho, em
254
fevereiro de 1909. Como governador, Coelho agiu rapidamente no sentido
de firmar sua independência dos até então onipotentes “lemistas”, nomean-
do para postos-chave da administração profissionais liberais urbanos pro-
gressistas e decepcionados filhos da elite tradicional. No campo econômico,
Coelho enfatizou seguidamente a necessidade absoluta do cultivo da hévea,
Por exemplo, sua primeira mensagem oficial ao legislativo paraense continha
não menos de cinco referências distintas ao problema.” Analogamente, seu
secretário da fazenda, Antônio Picanço Dias, iniciava seu relatório de 1909
com este sóbrio retrato da economia paraense:
A nossa situação econômica é mais precária do que parece. O nosso progresso
imais aparente do que real. Somos um povo pobre, a fortuna particular é instavel.
A nossa praça vive de credito que lhe dá a borracha (...) Softemos o mal dos
paizes que vivem das industrias extractivas com a aggravante de só termos um
producto de valor. (...) Devemos quanto antes, já, immediatamente, não só iniciar
a plantação methodica e proveitosa, como adoptar os méthodos racionaes da cul-
tura para o preparo e beneficiamento do (atex precioso.”
E, em outubro de 1909, José Ferreira Teixeira, um dos aliados mais
chegados a Coelho no governo do estado, propôs um “Projeto para a Defesa
da Indústria da Borracha”. Indiscutivelmente, esse foi o plano mais deta-
lhado jamais desenvolvido para a promoção do plantio da seringueira e para
a proteção das héveas silvestres no Pará. Entre outras coisas, O projeto ofe-
recia incentivos aos pretendentes a cultivadores de seringueira, que variavam
desde a concessão gratuita de terras e transporte para equipamentos e tra-
balhadores, até a garantia de juros de 5% sobre metade do capital investido
e 50% de redução nas taxas de exportação. Em troca, os beneficiários seriam
obrigados a plantar um mínimo de 20.000 héveas por ano, nos dois pri-
meiros anos, e talvez por mais tempo.”
O autor da proposta não podia pretender originalidade, pois o que
estabelecia lembrava muito os benefícios oferecidos pelo governo inglês aos
plantadores asiáticos, e eram até um pouco menos generosos. Não obstante,
tanto o próprio projeto quanto a linguagem usada por seu principal pro-
ponente representavam um distanciamento significativo das abordagens
anteriores dessa questão. Ferreira Veixeira não hesitou em predizer que O
negócio da borracha da Amazônia seria em breve “esmagado” pelas em-
brionárias plantações orientais e enumerava provas impressionantes para
corroborar suas afirmações. Mencionava, por exemplo, que os cultivadores
asiáticos podiam vender lucrativamente um quilo de borracha por uns 2
255
mil-réis, ao passo que a borracha amazônica custava cerca de 3 mil-réis
apenas para ser produzida, sem contar os impostos locais e as exorbitantes
taxas de frete. Assim sendo, era apenas questão de tempo, e o preço da
borracha cairia tanto que a produção da borracha silvestre deixaria de ser
financeiramente viável.”
Os argumentos de Ferreira Teixeira mostraram-se suficientemente con-
vincentes para que o legislativo paraense transformasse sua proposta em lei,
como Projetos n.º 1.036 e 1.037 — não, porém, sem alterações. Enquanto
a proposta original teria assegurado garantia de juros anuais de 5% sobre
investimentos de até 2 milhões de dólares, com um custo possível para o
estado de quase 100 mil dólares por firma, a forma definitiva da lei apenas
aumentou o montante dos prêmios concedidos pelo plantio de seringueiras
para um mil-réis por hévea — ou seja, 20 contos (6.500 dólares) por 20.000
árvores? Embora isso fosse muito menos atraente do que a proposta ori-
ginal, os deputados paraenses, tendo em vista que as finanças do estado
ainda estavam se recuperando da queda de preços de 1906-7, devem ter
considerado desaconselhável comprometer tão pesadamente os recursos pú-
blicos. E isso ocorria num período de preços extremamente altos; assim que
o mercado da borracha silvestre entrasse em colapso, até mesmo os incen-
tivos governamentais mais modestos iriam mostrar-se impraticáveis.
Dada a natureza limitada dos recursos do governo do estado, era lógico
que os políticos e comerciantes cônscios da ameaça representada pelas plan-
tações asiáticas buscassem uma solução regional, e até mesmo nacional, para
o dilema amazônico. Quanto a isso, o estado do Amazonas tomou a dian-
teira: em fevereiro de 1910, a cidade de Manaus abrigou o primeiro Con-
gresso Comercial, Industrial e Agricola da região, patrocinado conjunta-
mente pelo governo amazonense e pela Associação Comercial do Estado.
Reconhecendo a utilidade de uma abordagem mais ampla do problema do
cultivo da hévea, os representantes da política e do comércio paraense pu-
seram de lado sua antiga hostilidade para com a capital amazonense e com-
pareceram maciçamente ao congresso. Esse encontro histórico atraiu até
mesmo jornalistas do Rio, Paris, Nova York e Londres, bem como dezenas
de homens de governo e empresários da região.”
As recomendações finais do congresso não foram mais do que uma versão
diluída da proposta de Ferreira Teixeira: concessões gratuitas de terras pú-
blicas, redução dos direitos de exportação, distribuição de sementes e mu-
das, e ampla propaganda pelo governo. Os participantes acrescentaram,
também, uma série de pronunciamentos relativos a técnicas de extração,
métodos de coagulação de látex e conservação das estradas de hévea exis-
256
tentes.“? Em suma, os resultados do congresso não foram em nada propor-
cionais à publicidade e à agitação em torno dele. Além disso, nenhum
grande sentimento de urgência marcou suas sessões, uma vez que o con-
gresso reuniu-se exatamente quando os preços da borracha atingiam seu
ponto mais alto.
Assim que os preços começaram a despencar, a questão da proteção e
do plantio de seringueiras assumiu uma aura inteiramente nova de urgência
e de importância. Ao mesmo tempo, porém, a queda simultânea nas receitas
oriundas da exportação reduziu seriamente a capacidade dos estados ama-
zônicos de financiar programas ambiciosos de desenvolvimento. Não mais
de um ano após o início da decadência, o Pará e o Amazonas estavam ambos
lutando para conseguir apenas atender a suas despesas ordinárias. Em 1911,
o estado do Pará devia a credores nacionais e estrangeiros algo como 7.000
contos, e no correr dos cinco anos seguintes esse número quase quadrupli-
cou, em consequência de constantes déficits orçamentários. Quanto ao
setor privado, até mesmo as maiores casas aviadoras estavam lutando apenas
para sobreviver. Consegiientemente, a elite amazônica não tinha outra es-
colha senão voltar-se para o Rio de Janeiro em busca de auxílio.
Ao procurar a ajuda do governo federal, os amazônicos não se sentiam
implorando caridade ou pedindo favores especiais, uma vez que a economia
brasileira como um todo viera obtendo benefícios muito palpáveis com a
expansão da borracha, As exportações amazônicas haviam feito aumentar
substancialmente o montante de moeda estrangeira em circulação por todo
o Brasil — compensação da maior importância para um país de meio cir-
culante escasso e dívida externa cada vez maior. A economia da borracha
criava também novos mercados para bens de consumo nacionais, tais como
cachaça, carne-seca, gado e produtos têxteis. Quanto ao comércio interna-
cional, desde 1898 a borracha respondia por pelo menos 20% do valor
total das exportações brasileiras, atingindo, em 1910, 40% (em comparação
com 41% do café), E o impacto da Amazônia sobre a balança comercial
global era consideravelmente mais forte do que indicam esses números,
uma vez que os níveis de importação da região, ainda que elevados quando
representados per capita, mantinham-se muito abaixo do valor de suas ex-
portações. Assim, em 1908, a Amazônia registrou um superávit comercial
de 127.848 contos, ao passo que o dado para o Brasil como um todo era
de apenas 138.519 contos. E em 1910, um ano fraco para o café, o superávit
das exportações sobre as importações da Amazônia foi de 32.391 contos
mais alto que o total do país.*?
Em termos de renda, o governo federal recebia toda a receita dos im-
257
postos de exportação arrecadada sobre a borracha acriana, bem como as
receitas das crescentes tarifas cobradas pelas alfândegas de Belém e de
Manaus. Além disso, pouca diferença havia entre as receitas brutas e lfqui-
das, uma vez que, com o sistema fiscal descentralizado da Primeira Repú-
blica, o governo federal só arcava com a responsabilidade específica das
despesas relacionadas com a coleta das receitas. Naturalmente, havia as
despesas decorrentes da aquisição do território do Ácre, mas os impostos
sobre a exportação da borracha daquela área mais do que compensaram o
governo de suas perturbações ao fim dos primeiros quatro anos. Apenas
raramente o governo federal terá devolvido à região mais do que 20% da
renda bruta recebida na Amazônia; normalmente, essa cifra estava próxima
de 15% ou menos.é
Dada a contribuição significativa da economia da borracha ao comércio
nacional, à receita federal e ao suprimento de divisas estrangeiras, era difícil
discutir com o deputado paraense que afirmava que a crise amazônica tor-
nar-se-ia uma catástrofe de proporções nacionais. E por um breve mo-
mento, o governo do Marechal Hermes da Fonseca demonstrou certa dis-
posição de lidar com o colapso do mercado da borracha silvestre como um
problema nacional. O primeiro passo nesse sentido foi a criação de uma
Superintendência para a Defesa da Borracha. Hermes da Fonseca instituiu
essa nova repartição do Ministério da Agricultura por influência do Primeiro
Congresso da Borracha, realizado no Rio de Janeiro, a 14 de agosto de
1911; seu objetivo expresso era o estímulo ao cultivo da seringueira por
todo o país. Com a promulgação do Decreto n.º 2.543A, de 5 de janeiro
de 1912, o presidente autorizou a Superintendência a atribuir prêmios pelo
plantio de seringueiras (até 2,5 contos para cada 12 hectares de novas héveas
plantadas), instalar estações experimentais, isentar maquinaria e equipamen-
tos das tarifas de importação, edificar hospedarias para imigrantes, construir
estradas de ferro nas áreas em que fosse impossível a navegação, promover
a produção de cereais e os empreendimentos de pesca, instituir procedi-
mentos no sentido de elevar os padrões higiênicos em áreas rurais e urbanas,
e subsidiar o funcionamento de usinas para o processamento uniforme da
borracha bruta.
Metas tão ambiciosas expressam certamente as boas intenções da Supe-
rintendência. Porém, o êxito ou fracasso do programa dependia inteiramen-
te da generosidade do Congresso Federal, e essa instituição, para desgosto
dos amazônicos, recusou-se seguidamente a aprovar recursos a não ser para
os projetos mais inócuos e menos dispendiosos.* Assim, a “Campanha
Nacional para a Defesa da Borracha”, nunca foi além da distribuição de
Easy + z
258
propaganda e da publicação de folhetos instrutivos — e a maioria desse
material orientava-se no sentido de estimular a produção da borracha fora
da Amazônia. Em meados de 1912, a Superintendência já havia posto de
lado todas as propostas concretas de plantio ou de valorização da borracha,
e seu principal administrador havia informado à arrasada elite amazônica
que a única solução era a redução dos custos da extração da borracha
silvestre.”
Esta bofetada foi só uma da série de ofensas sofridas pela elite amazônica
nas mãos do governo federal. De fato, o governo de Hermes da Fonseca
havia desferido, um ano antes, o que terá sido, provavelmente, o golpe mais
doloroso para a região, quando se recusou a apoiar o Pará e o Amazonas
na implementação de um acordo bilateral para a defesa da economia da
borracha e para promover o desenvolvimento regional. Numa avaliação
realista de suas respectivas deficiências financeiras, os governos dos dois
estados propunham-se a tomar emprestados 6 milhões de libras esterlinas
de fontes externas, que seriam saldados mediante um imposto adicional
sobre a borracha. O governador Coelho afirmou mais tarde que não falta-
vam bancos estrangeiros dispostos a emprestar mencionada soma ao Pará
e ao Amazonas; porém, esse tipo de transação exigia sustentação federal, e
o governo de Hermes da Fonseca recusou-se a dar sua aprovação. Não é
preciso dizer que essa decisão irritou os amazônicos que sabiam que todo
seu empenho pela cooperação e conciliação não dariam em nada sem essa
fonte essencial de recursos.
A um observador superficial, poderia parecer que o governo brasileiro
estava fazendo o máximo possível para sabotar qualquer tentativa local de
recuperar a decadente economia da Amazônia. De fato, porém, na maior
parte, as propostas e sugestões feitas pela elite regional não eram nem rea-
listas nem práticas. Fixar uma sobretaxa sobre um produto de exportação
já sobrecarregado de direitos dificilmente seria uma idéia inspirada, e a
teimosa insistência dos amazônicos sobre a eficácia dos preços sustentados
chegava às raias da insensatez. Analogamente, a proposta de um desconto
nas tarifas sobre gêneros alimentícios destinados à Amazônia, medida que
visava à redução do custo de vida, não só era inconstitucional como te-
presentava um convite aberto ao contrabando.” E a campanha em defesa
da borracha chegou a seu ponto mais baixo quando os paraenses exigiram
direitos de importação mais elevados para todos os bens que contivessem
borracha cultivada. Apresentado pela primeira vez pela bancada do Pará na
Câmara Federal, em 1913, esse projeto de lei conseguiu, de maneira bas-
tante estranha, reunir apoio suficiente para manter-se em pé até sua rejeição
259
definitiva cinco anos depois. Mais uma vez, os paraenses reagiram com a
previsível irritação mas, desta vez, sua recusa em aceitar as objeções de seus
adversários só pode ser encarada como indicação do mais completo deses-
pero da elite regional. Por outro lado, os defensores desse projeto dificil-
mente poderiam deixar de perceber que a medida teria sido não só inapli-
cável, como ineficaz, especialmente porque, em 1915, o Brasil importava
menos de um milhão de dólares de produtos de borracha.
Contudo, nem todas as propostas dos amazônicos eram tão pouco prá-
ticas ou malconcebidas. Implementadas rapidamente e com energia, algu-
mas das medidas para promover o cultivo da seringueira e o desenvolvi-
mento agrícola poderiam ter sido pelo menos modestamente bem-sucedidas
e amortecido o impacto do colapso. Seria dificil, também, provar que só
estivesse em questão a viabilidade, uma vez que o governo federal, no pas-
sado, havia atuado com muito mais determinação em circunstâncias igual-
mente desfavoráveis." Mas se não podemos desprezar as acusações feitas
pelos paraenses e amazonenses contra o governo da União, como explicar
a evidente indiferença da administração federal para com os problemas
econômicos da região?
Antes de mais nada, é preciso assinalar que as estatísticas que registram
a parcela da Amazônia na receita nacional e no comércio exterior são, em
certo sentido, ilusórias. Afora sua contribuição ao Tesouro Nacional e à
balança de pagamentos, o comércio da Amazônia tinha realmente pequeno
impacto sobre os demais setores econômicos do país. Como fonte de capital,
a elite da borracha desempenhava um papel desprezível, pois investia muito
pouco de seus lucros fora da própria região. Como mercado, a Amazônia
tinha alguma importância, mas a grande maioria de seus gêneros alimen-
tícios e produtos manufaturados era produzida localmente, ou adquirida
no exterior e, de todo modo, sua população era demasiado pequena para
que tivesse algum efeito sobre o consumo nacional. Finalmente, o produto
do qual a Amazônia dependia para sua prosperidade tinha de ser vendido
quase que totalmente no exterior, uma vez que o setor industrial do Brasil,
ainda engatinhando, necessitava de pouca borracha bruta. Assim, mesmo
no auge da expansão da borracha, a Amazônia ocupava uma posição peri-
férica na economia nacional.
Naturalmente, pode-se afirmar que a economia brasileira, regionalizada
e não integrada, não possuía “centro”, nem “periferia”, mas isso não parece
inteiramente exato. Na esfera política, a elite paulista e seus aliados do
Centro-Sul em geral tinham poder suficiente para determinar a distribuição
do patrocínio federal e o resultado das batalhas básicas no Congresso, co-
260
locando assim os estados “menores” em nítida desvantagem. Além disso, o
desequilíbrio do poder político refletia desigualdades regionais que existiam
e eram fortalecidas pelo funcionamento do sistema federalista. Do mesmo
modo que em outros países caracterizados por padrões de desenvolvimento
marcadamente desiguais, o Brasil assistia ao aparecimento de classes capi-
talistas cujos interesses financeiros mais importantes limitavam-se a deter-
minada região, mas que precisavam da cooperação ou da aquiescência de
grupos políticos dominantes em outras partes do país. Conseqientemente,
essas novas elites capitalistas eram poderosos defensores da descentralização
e da autonomia local — na medida em que elas próprias mantivessem o
domínio do governo da União e pudessem assegurar que o crescimento
econômico das áreas mais desenvolvidas (São Paulo e, em menor medida,
Minas Gerais e Rio Grande do Sul) não seria dificultado pelas regiões mais
pobres.”
Se, na Velha República, o poder econômico era um determinante básico
do status político de uma região, então a Amazônia deveria ter sido consi-
deravelmente mais poderosa do que foi. Contudo, mesmo quando a Ama-
zônia estava no auge de sua prosperidade, a região estava distante da linha
de frente da mudança sócio-econômica no Brasil. Enquanto São Paulo era
uma região próspera, que fazia rapidamente a transição de uma economia
agrícola pré-capitalista para outra, decididamente capitalista e industriali-
zada, a Amazônia era a sede de uma expansão isolada de exportação, fenô-
meno que já demonstrava muitas vezes ser um beco sem saída econômico.
Enquanto Minas Gerais e o Rio Grande do Sul desenvolviam setores agrí-
colas diversificados, voltados para a demanda interna, a Amazônia conti-
nuava a ser uma economia tradicional de exportação de um só produto,
com um mercado interno pequeno que não havia sinal algum de expansão.
É bem verdade que os estados do “café com leite” buscavam também avi-
damente obter leis especiais e benefícios financeiros para seu produto de
exportação, o café, mas podiam argumentar com muita razão que o negócio
do café constituía a base de toda uma rede de empreendimentos agrícolas
e industriais relacionados entre si, de potencial econômico incomensurável.
Em contraposição, o colapso do mercado da borracha silvestre teria previ-
sivelmente poucas repercussões para o resto do Brasil. Por isso, da posição
privilegiada dos estados do Centro-Sul, compensar a perda de renda devida
à decadência do negócio da borracha por meio de aumento de tarifas ou
da introdução de outras medidas fiscais parecia mais fácil do que recuperar
o negócio enterrando centenas de milhares de contos em um programa de
salvação de mérito duvidoso. Afinal de contas, o tiro saiu pela culatra, para
261
os paraenses: a descentralização política e tributária pela qual haviam cla-
mado na década de 1880 acabou resultando num sistema Federalista que
marginalizou a Amazônia e seus interesses
Cedo abandonada pelo governo federal e incapaz de obter apoio da
administração estadual cheia de dificuldades, a elite paraense viu-se de
novo às voltas com seus próprios recursos à medida que a economia en-
trava em total decadência. De início, as estatísticas não evidenciaram ime-
diatamente que a economia da borracha estava em estado de colapso, já
que em 1912 a Amazônia exportou a quantidade recorde de 43.370.000
quilos de borracha. Porém, com o preço médio já bem abaixo de 5 mil-réis
o quilo e continuando a cair, a safra abundante daquele ano apenas exa-
cerbava a difícil situação da comunidade comercial. Como sempre, o setor
extrativo da Amazônia mosttava-se lento em reagir às tendências do mer-
cado: o aumento da produção de borracha em 1912 foi conseguência
imediata do aumento nos aviamentos e da expansão física ocorridos em
1910, quando os preços haviam atingido seu ponto mais alto. Ao ampliar
suas operações para beneficiar-se da febre da borracha, a maioria das firmas
de aviamento havia levado além do limite sua capacidade de crédito com
os bancos locais e com as casas importadoras. Quando os preços come-
çaram a baixar, muitas dessas mesmas firmas buscaram adiantamentos do
Banco do Brasil, depositando sua borracha como garantia. Porém, quando
se tornou evidente que os preços da borracha não iam se recuperar subs-
tancialmente em futuro próximo, os comerciantes viram-se com poucos
recursos para saldar seus débitos, que se multiplicavam rapidamente.
Quando a safra de 1912 chegou ao mercado, muitos aviadores não tiveram
outra coisa a fazer senão liquidar seus estoques com prejuízo.*
Os aviadores haviam sido o primeiro segmento da elite local a desfrutar
os resultados da expansão da borracha, e eram agora os primeiros a expe-
rimentar o amargor da decadência. Não que as décadas intermediárias lhes
tivessem oferecido apenas prosperidade — a queda de preços de 1901, em
particular, causara uma chusma de bancarrotas e de desastres financeiros
que funcionaram como um prelúdio agourento do que estava para vir. Não
obstante, todas as experiências anteriores desse tipo eram quase nada em
comparação com a quebra catastrófica de 1910.
À pior onda de falências atingiu o Pará em 1913, logo depois dos graves
prejuízos causados pela safra de 1912. Uma revista francesa do negócio da
borracha, fazendo um levantamento dos destroços da quebra em Belém,
262
arriscou dizer que “é dificil encontrar no mundo outro logar mais forte-
mente maltratado do que o Pará na hora actual”.5S E prosseguia relacio-
nando todas as firmas paraenses que se haviam declarado falidas, ou chegado
a um acordo com seus credores, bem como o montante de capital perdido
em cada falência. Uma vez que a relação incluía somente o período entre
janeiro e dezembro de 1913, ela não era completa. Alguns estabelecimentos
já haviam entrado em dissolução final antes de 1913, e muitas mais iriam
falir no correr da década. Mas até mesmo esses dados incompletos ilustram
bem a grandeza da catástrofe comercial da Amazônia.
Segundo cálculos do Bulletin du Caoutchonc as perdas totais sofridas
pelas 47 casas aviadoras que faliram montaram à assustadora soma de
66.937 contos (aproximadamente 20 milhões de dólares). As perdas indi-
viduais variaram entre apenas 3 contos e bem mais de 13.000 contos, sendo
que as firmas maiores, naturalmente, registravam os maiores totais. Por
exemplo, dois dos mais antigos estabelecimentos de Belém, Mello & Cia.
e B. Antunes & Cia, (sucessora de B. A. Antunes), perderam 10.000 e
12.000 contos respectivamente e, mais ainda do que esses, Pereira, Bessa
& Cia., que pouco tempo antes havia ampliado exageradamente suas ope-
rações, perdeu 16.000 contos. Além disso, havia uns 18.320 contos perdidos
por bancos e casas exportadoras “comprometidas” nas falências, 73% dos
quais recafam pesadamente sobre o Banco do Brasil. O Banco do Pará e o
Banco Comercial do Pará perderam em conjunto 2.200 contos, e o esta-
belecimento financeiro de Moreira Gomes & Cia. saiu 750 contos mais
pobre. Finalmente, dois dos principais exportadores do Pará, J. Marques e
Zarges Berringer & Cia., perderam 270 e 600 contos, respectivamente.”
Como se esses números não fossem suficientemente dramáticos, houve
ainda várias firmas que conseguiram escapar à bancarrota, mas sofreram
reduções drásticas de capital, Uma das destacadas casas aviadoras, Thomé
de Vilhena & Cia., saiu intacta dos piores anos do colapso, mas seu capital
diminuíra de cerca de mil contos para apenas 150 contos. Do mesmo modo,
nenhum dos bancos locais mais importantes do Pará chegou a falir em
consequência de suas perdas, fato que proporcionou um pequeno consolo
à comunidade empresarial de Belém. Contudo, em 1914, ambos os bancos
tinha baixado a menos de 5.000 contos de capital — em lamentável con-
traste com os totais de 10.000 e 12.000 contos registrados em fins da década
de 1890.
Mesmo sem ter acesso aos dados financeiros relativos àqueles anos, ainda
assim os sinais da calamidade seriam inequívocos. Os jornais locais dedica-
vam páginas inteiras a notícias sobre leilões de jóias penhoradas, cujos pro-
263
prietários não tinham tido condições de resgatar. Seringais e vapores figu-
ravam também constantemente dos lotes leiloados. Quanto a propriedades
urbanas, um artigo em edição de 1915 de 4 Folha do Norte assinalava que
Belém, após décadas de escassez de moradia, possuía perto de três mil casas
vagas.”? Em suma, não se podia negar que a comunidade mercantil do Pará
sofria uma crise profunda e prolongada, gerada pela desvalorização da bor-
racha e pela crescente concorrência das plantações asiáticas. Contudo, mes-
mo considerando as circunstâncias externas extremamente desfavoráveis,
ainda assim o número de vítimas no setor comercial do Pará parece inco-
mumente elevado. Seria de esperar que muitas firmas financeiramente dé-
beis e de baixa solvência não conseguissem sobreviver às provações e às
atribulações do período de decadência; mas como entender que casas avia-
doras, com milhares de contos de capital e perto de quarenta anos de ati-
vidade comercial, fossem à bancarrota literalmente da noite para o dia?
Parte da explicação encontra-se na reação em cadeia desencadeada pela
sétie inicial de infortúnios financeiros. A exagerada interdependência do
sistema de aviamento possibilitava ao setor comercial absorver com muita
facilidade os pequenos choques, pois as perdas eram amplamente partilha-
das; em momentos de crises mais graves, porém, essa interdependência
podia ter consegiiências desastrosas. Numa situação em que cada casa co-
mercial recebia crédito de outras firmas, ou fazia adiantamentos a outras
firmas em troca de bens e serviços, poucos aviadores podiam escapar imunes
ao colapso. E nos degraus mais altos da hierarquia, multiplicavam-se os
débitos cumulativos. Assim, em 1914, o Banco Comercial do Pará comu-
nicou a seus acionistas que não seriam distribuídos dividendos aquele ano,
devido às falências de B. Antunes & Cia., Mello & Cia., Cerqueira Lima
& Cia., Martins & Abreu, e Pereira, Bessa & Cia., firmas essas que, em
conjunto, deviam ao banco 4.000 contos.”
Essa característica da vida comercial da Amazônia ajuda a explicar por
que até mesmo firmas relativamente conservadoras, com poucas dívidas de
monta, sofreram sucessivas dificuldades no decorrer da decadência. Além
disso, havia aspectos fundamentais do negócio de aviamento que respon-
diam mais completamente pela ampla ruína que caiu sobre a comunidade
mercantil do Pará. É de suprema importância que se reconheça que o capital
e o ativo declarado pelas mais preeminentes casas aviadoras eram, freguen-
temente, inflacionados, ilusórios e extremamente instáveis, uma vez que
consistiam, em grande parte, de débitos incobráveis — “posses” valiosas
durante o período de expansão da borracha, na medida em que garantiam
ao aviador uma clientela de tamanho apreciável. Por exemplo, em março
264
de 1891, os herdeiros do falecido comerciante José Pereira Henriques lei-
loaram a relação de débitos deixados por sua casa aviadora, com totais que
variavam de 72 contos a 6 mil-réis.“ Pelo número de seus fregueses, Hen-
riques deve ter sido um homem extremamente importante na comunidade
comercial do Pará, e num momento em que os preços da borracha estavam
em plena alta, seus herdeiros provavelmente conseguiram um bom lucro
com a “venda” de seus devedores. Uma vez, porém, iniciada a decadência,
com as firmas desesperadamente carentes de dinheiro vivo, tais ativos mos-
traram não ter valor algum.
Do mesmo modo, poucas casas aviadoras podiam contar facilmente com
suas reservas de capital em tempos de crise. Como já vimos, a despesa
operacional média das firmas superava folgadamente seu capital social, uma
vez que a maioria de suas transações se realizava com base no crédito. Assim,
o total de compromissos de um estabelecimento como B. Antunes & Cia.,
cujo capital declarado, em 1912, era de 2.000 contos, montava a muito mais
de 10.000 contos à época em que abriu falência. Pior ainda, muitas vezes
o capital e os ativos de uma firma consistiam em grande parte de bens
imóveis rurais e/ou urbanos, de valor inflacionado ou efêmero. A tendência
no sentido de registrar e demarcar mais cuidadosamente os seringais, no
correr das últimas décadas da expansão da borracha, havia transformado os
seringais antes “sem valor” em propriedades cada vez mais valiosas. Em
consegqlência, tornou-se muito mais comum e admissível que as casas
aviadoras relacionassem consideráveis “bens de raiz” (capital fixo) no conjun-
to de seus ativos, ao dar início a uma linha de crédito. Como também se
tornou comum superestimar seu valor com base nos preços da borracha em
expansão, Por exemplo, quando Alves Braga & Cia. se dissolveu e se
constituiu novamente como Alves Braga Rubber Estates and Trading Co,,
Ltd., em 1909, a nova corporação emitiu mais de 2.000 contos de ações que
ela garantia com quatro vapores (no valor de 406 contos) e sete seringais no
alto Acre — estes com 2.700 estradas, nove barracões e diversas outras
benfeitorias &
Trangiiilos com os preços que se mantinham elevados nos últimos
anos da expansão da borracha, os aviadores, por toda a Amazônia, co-
meçaram a deixar de lado sua tradicional relutância em adquirir proprie-
dades rurais, justamente às vésperas da decadência. Porém, mesmo antes
do colapso, havia algumas indicações de que aqueles seringais ainda de-
viam ser considerados de valor discutível. É significativo que os bancos
e as casas exportadoras locais geralmente se recusassem a aceitar até mesmo
os maiores seringais como garantia de empréstimos, dando preferência a
265
itens mais comercializáveis, como navios ou imóveis urbanos. De fato,
nas raras ocasiões em que uma casa aviadora conseguia utilizar seus se-
ringais como garantia de um empréstimo, quem estava emprestando nor-
malmente aceitava não a propriedade em si mesma, mas sim uma parcela
determinada da safra vindoura de borracha.
Com o Início da decadência, os moradores de Belém regalavam-se com
o espetáculo de aviadores financeiramente liquidados lutando para livrar-se
de suas propriedades rurais. Diariamente os jornais locais publicavam anún-
cios de venda de seringais de propriedade de casas comerciais em liquidação,
e por sua constante repetição parece evidente que os vendedores encontra-
vam poucos interessados. Naturalmente, à medida que os preços da borra-
cha caíam, o mesmo acontecia ao valor dos seringais — e ao patrimônio
de seus proprietários. Um membro da elite paraense que sofreu exatamente
esse destino foi Raymundo Pereira Brazil: foi obrigado a abrir falência em
1918 devido a um débito de 250 contos que não podia ser coberto pelos
milhares de estradas de seringueiras que possuía. Maldizendo seu infortúnio
em carta aberta a seus credores, Pereira Brazil observava amargamente que
“propriedades rurais que realmente produzem na Amazônia não valem coisa
alguma”.&
Os aviadores que haviam escolhido aplicações tradicionalmente mais
seguras para seus lucros ficaram apenas ligeiramente melhor que seus com-
panheiros que possuíam extensas propriedades rurais. Os imóveis urbanos,
há muito considerados investimento mais seguro pela comunidade finan-
ceira de Belém e, assim, a forma mais confiável de garantia para emprésti-
mos, mostraram-se quase tão vulneráveis às pressões da depressão quanto
os seringais. Em 1913, os bens imobiliários urbanos haviam caído em até
50%, e é de admirar que não tenham caído ainda mais, uma vez que grande
parte da população da elite de Belém estava enormemente necessitada de
dinheiro e as casas da cidade esvaziavam-se às dezenas,
Se os imóveis urbanos eram o investimento mais seguro para o aviador,
os navios constituíam seus bens privilegiados. Um navio era tão generali-
zadamente aceito como sinal de prestígio, que todo comerciante que aspi-
rasse a um status de primeira classe dentro da comunidade comercial do
Pará precisava conseguir reunir os 150 contos que lhe permitissem comprar
seu próprio navio. Em consequência disso, havia, em 1910, mais de cem
vapores de propriedade privada em funcionamento fora de Belém, além
dos 37 navios de empresas como a Amazon River (antiga Amazon Steam).
De fato, críticos do negócio do aviamento detratavam energicamente os
comerciantes de borracha por terem mitificado a propriedade de navios, e
266
afirmavam que a capacidade de transporte do estado havia crescido para
muito além do necessário.” E embora essa acusação pudesse ter sido pre-
matura no decorrer da expansão da borracha, veio a provar-se exata com o
início da decadência.
O problema não era simplesmente falta de carga, já que o montante da
safra de borracha da Amazônia, fiel a experiências anteriores, não apresentou
todo o efeito da queda de preços até bem depois do colapso do mercado
da borracha bruta. Por exemplo, em 1914, a região exportou 36.700 tone-
ladas de borracha, apenas 15% menos que o recorde de 43.370 toneladas
de 1912, e, em 1917, as exportações de borracha voltaram a subir para
39.000 toneladas. Com preços muito baixos, porém, já não era economi-
camente viável utilizar os navios a não ser a plena carga, e muitos armadores
preferiram deixar seus barcos em dique seco a mantê-los em funcionamento
com prejuízo. Outros, muito necessitados de dinheiro vivo, procuravam
leiloar seus navios; mas com a demanda local tão fraca, até mesmo navios
novos foram arrematados por apenas 50 contos, e os mais velhos só podiam
ser vendidos como sucata. E para muitas firmas, a desvalorização de seus
navios e imóveis urbanos representou desastre imediato, uma vez que se
tornara muito comum “penhora” um navio ou hipotecar imóveis para
conseguir empréstimos extraordinários — especialmente às vésperas da de-
cadência, quando os aviadores precipitavam-se para tirar vantagem da su-
bida vertiginosa dos preços da borracha. Incapazes de saldar suas dívidas
com a venda daqueles ativos, as firmas atingidas nada mais podiam fazer
senão abrir falência.
À medida que o colapso deu lugar à decadência permanente, tornaram-se
agudos os problemas dos donos de navio que ainda restavam no Pará. Além
de seus muitos outros problemas, o governo do estado, financeiramente
abalado, reduzira ao menor dos mínimos os subsídios à navegação privada,
e, já em 1915, a Associação Comercial estimava que perto de quarenta
navios paraenses estavam ociosos. Por isso, a comunidade mercantil de Be-
lém ficou particularmente irritada quando a Câmara Federal aprovou um
aumento do subsídio concedido à Amazon River Co. Embora ninguém
duvidasse de que até mesmo essa poderosa corporação estivesse tendo difi-
culdades em equilibrar seu orçamento, isso soou para os proprietários pri-
vados de navios como mais uma bofetada do Rio de Janeiro. Afinal de
contas, o governo federal dava ajuda a uma corporação estrangeira e não a
empresários nacionais, tornando praticamente impossível que os armadores
brasileiros competissem com a Amazon River. Manifestando suas frustrações
em uma reunião de protesto contra a decisão do Congresso, destacados
267
comerciantes, como M. J. Rebello e Raymundo Pereira Brazil, condenaram
energicamente o governo federal por negligenciar deliberadamente a comu-
nidade comercial de Belém. Pereira Brazil sugeriu ainda a formação de um
consórcio de armadores privados a fim de obter maior eficiência na utili-
zação da tonelagem disponível e na coordenação dos horários e itinerários.”
À idéia mereceu calorosa aceitação, mas cooperação e eficiência não podiam
compensar a falta de demanda; com a produção de borracha em declínio,
a maioria dos armadores recorreu a reduções drásticas de atividade, ou
simplesmente cerrou as portas.
Há muitos indícios a partir dos quais se pode reconstruir a decadência
da comunidade aviadora do Pará, mas pouquíssimas informações sobre o
que realmente aconteceu a cada um dos comerciantes que não conseguiram
sobreviver ao colapso com seus haveres intactos. Alguns deles terão, sem
dúvida, regressado a Portugal, sua terra de origem, onde pelo menos o clima
era mais agradável e os costumes totalmente familiares. Outros terão mu-.
dado para cidades brasileiras como o Rio de Janeiro, São Paulo ou Porto
Alegre, que, em termos de oportunidades financeiras, ofereciam muito mais
do que a Amazônia no período posterior à expansão da borracha. Mas a
grande maioria permaneceu em Belém, vivendo em condições bem mais
modestas e participando do comércio local em escala muito menor.”
O colapso e a depressão que se seguiu causaram, também, visíveis alte-
rações nos níveis mais altos da hierarquia comercial da Amazônia. À medida
que se reduzia o papel desempenhado pela região no suprimento de bor-
racha para as nações industrializadas, os importadores ingleses, alemães e
norte-americanos começaram a diminuir gradativamente suas operações e
a retirar seus representantes de Belém e de Manaus. Para preencher a lacuna
resultante de sua partida surgiram rapidamente casas exportadoras inde-
pendentes, inteiramente financiadas por capital local. Algumas dessas fir-
mas, como a J. Marques (inicialmente estabelecimento português), já ha-
viam atingido importância considerável nos últimos anos da expansão.
Outras, porém, como S. Marques, Chamié & Koury, e Tancredo, Porto &
Cia., começaram a prosperar depois do início da decadência.”
Isso não significa que os exportadores desaparecessem inteiramente. A
General Rubber Co., representada pela Casa Gordon, de Belém, manteve-se
em funcionamento na Amazônia pela década de 1920 adentro, sendo fre-
qiientemente acusada de atividades especulativas. Presentes também na ca-
pital paraense, ainda em 1920, estavam Berringer & Cia. e Stowell & Cia.,
mas nenhuma dessas firmas representava, nessa época, qualquer semelhança
com os monstros financeiros dos anos da expansão da borracha”? Os esta-
268
belecimentos estrangeiros tendiam também a manter-se muito mais ativos
em Manaus do que em Belém, provavelmente em função da participação
mais débil da elite amazonense no mundo comercial, uma vez que, nessa
época, as duas cidades participavam mais ou menos igualmente do negócio
da borracha.” Assim sendo, uns poucos estabelecimentos estrangeiros con-
tinuaram a existir durante os primeiros dez anos da decadência, mas, pelo
menos no Pará, perderam seu virtual monopólio do comércio internacional.
De fato, em 1920, as firmas regionais independentes realizavam perto de
três quartas partes das exportações de borracha do Pará.”
Uma ramificação final dessas mudanças no setor de exportação foi a
crescente obsolescência da casa aviadora. Durante a expansão, os compra-
dores de borracha de Nova York e Liverpool em geral restringiam sua par-
ticipação na economia de borracha da Amazônia ao comércio transatlântico,
Desconhecendo o sistema extrativo de produção e os costumes comerciais
do interior, preferiam deixar esses aspectos do negócio aos intermediários
locais. Em tais circunstâncias, o aviador desempenhava uma função funda-
mental e concreta. Porém, com o crescimento do setor exportador nas mãos
de firmas locais, muitas das quais conheciam intimamente a economia ex-
trativa da região, a casa aviadora, como entidade distinta, perdeu sua razão
de ser. Além disso, com margens de lucro muito estreitas, tornou-se impra-
ticável conceder a um intermediário quase supérfluo uma fatia do bolo que
se encolhia continuadamente. Em consegiiência disso, muitos dos estabe-
lecimentos locais começaram a reunir sob o mesmo teto, por assim dizer,
as funções de aviador e de exportador, e a rede de aviamento tratou de
sobreviver ao colapso do mercado da borracha — sem, porém, as grandes
casas aviadoras.””
Não houve um membro da comunidade comercial do Pará que escapasse
à crise totalmente ileso. Com a queda do valor das propriedades de todo
tipo e a população sofrendo um abalo financeiro generalizado, até mesmo
os negócios que se relacionavam apenas tangencialmente com a economia
extrativa devem ter sentido as repercussões da decadência. Não obstante,
poucos membros da elite sofreram na mesma medida que os aviadores, e
um certo número de empresas conseguiu realmente prosperar dentro de
uma atmosfera de rápida recessão,
À capacidade dessas firmas de sobreviver e prosperar em circunstâncias
tão nefastas pode ser atribuída, quase sem exceção, ao crescimento e desen-
volvimento de Belém como um centro urbano cuja existência já não de-
pendia inteiramente do negócio da borracha. Em 1912, a população mu-
nicipal da capital paraense elevara-se para 275.167 habitantes, fazendo dela
269
uma das cinco maiores áreas urbanas do Brasil e um mercado considerável
para gêneros alimentícios e produtos manufaturados. Durante os oito anos
seguintes, a crise comercial da Amazônia saiu muito cara para a principal
cidade da região: por ocasião do censo de 1920, a população de Belém caíra
para 236.402 habitantes, e o poder de compra provavelmente diminuíra
mais depressa que seu número. Os membros do setor médio da cidade,
constituído principalmente de funcionários públicos e pequenos profissio-
nais, ou eram mal pagos ou nada recebiam, dependendo do estado das
finanças do governo.* A situação da embrionária classe trabalhadora do
Pará — que já fora a mais bem paga do Brasil — provavelmente também
se deteriorara, uma vez que as oportunidades de emprego na área portuária
haviam decrescido acentuadamente. Além disso, grande parte da população
urbana consistia, sem dúvida, de antigos seringueiros que se haviam deslo-
cado para a cidade em busca de um meio de vida, e eram, provavelmente,
pobres ao extremo. Contudo, uma cidade com 236.402 habitantes (número
que colocava Belém apenas ligeiramente abaixo de Recife) criara uma de-
manda considerável de bens agrícolas e industriais, até mesmo nos períodos
de menor prosperidade,
Assim sendo, não é de admirar que os atacadistas e industriais de Belém
tenham desfrutado uma taxa de sobrevivência mais alta que a de seus
companheiros do negócio do aviamento. Isto não significa que o comércio
importador não tenha sofrido reveses —- uma impossibilidade prática, uma
vez que muitos dos importadores da cidade serviam diretamente ao setor
extrativo. Às estatísticas comerciais falam por si mesmas: em 1910, a Ama-
zônia importou mercadorias no valor de 97.087 contos; em 1919, apesar
da inflação, esse número caíra para 41.934 contos.” Assim, grande parte
dos negócios no atacado do Pará entrou em colapso junto com a economia
da borracha, mas as casas importadoras que atendiam tanto ao mercado
rural quanto ao urbano, e que se haviam especializado em maquinaria,
ferragens, armas, remédios e outros gêncros de primeira necessidade não
produzidos localmente, continuavam relativamente bem. Quanto ao setor
industrial, tinha de haver-se com um mercado local cronicamente limitado
e com níveis de renda reduzidos entre seus principais clientes. Contudo,
ele teve uma vantagem com o início da decadência: a conseqiiente redução
das importações ajudou a diminuir a concorrência por parte de indústrias
estrangeiras.
O contraste entre o destino dos principais comerciantes da borracha,
sufocados por dívidas ou levados à falência, e os principais importadores
tornou-se mais marcado a cada ano da decadência. Em 1917, a Viúva
270
Guilherme Miranda & Filho, uma das maiores casas aviadoras a resistir à
crise, registrava um modesto capital de 200 contos; um ano antes, a im-
portadora de ferragens de Antunes, Simões & Cia. havia aumentado seu
capital para 500 contos; Cezar Santos & Cia., importador e varejista de
produtos farmacêuticos, registrou um capital de 500 contos; e A. Mourão
& Cia. atacadista de tecidos, declarava ter 800 contos.” E alguns impor-
tadores realmente bem-sucedidos, como Moreira Gomes & Cia. e Nicolau
Martins & Filho, acumularam mais de mil contos de capital e associaram
operações financeiras e outras atividades comerciais. Contudo, o recorde
de bons resultados numa situação adversa pertence a um certo Raphael
Fernandes Gomes. Vindo para o Pará no início da expansão, o jovem
Raphael logo se tornou gerente da Ferreira Gomes & Cia., casa importadora
de ferragens e artigos de luxo, fundada por seu tio. Na década de 1890,
Raphael tornou-se também sócio da Martins Jorge & Cia., firma que
possuía a única fábrica de cordas e barbantes de Belém. Sob suas vistas
atentas, ambas as companhias prosperaram durante a expansão e a deca-
dência, de modo que, em 1925, Raphael tinha o prazer de ver suas duas
empresas encabeçarem a relação das empresas do Pará, com 2.400 contos
cada uma.”
No mesmo sentido, os empreendimentos industriais do Pará, embora
modestos em suas dimensões e perspectivas, mostraram-se surpreendente-
mente duradouros e relativamente lucrativos. Segundo um levantamento
industrial local, realizado em 1918, a cidade de Belém tinha pelo menos
dez fábricas produzindo mercadorias no valor de 500 contos ou mais por
ano e todas elas, com exceção de duas, eram anteriores à decadência. A
cerâmica de E L. Souza, por exemplo, fora fundada em 1888; trinta anos
mais tarde exibia um capital de 2.000 contos. Havia, também, algumas
fábricas construídas durante os anos iniciais da decadência por antigas casas
aviadoras que saíram da ruína financeira com capital suficiênte para investir
em outros setores econômicos. Nicolau da Costa & Cia., para citar apenas
um deles, pôs 500 contos numa fábrica mecanizada de cigarros que, em
1925, produzia mais de 250.000 unidades por dia.
Longe de perecer à medida que persistia a decadência, a maioria dessas
empresas entrou numa fase ainda mais próspera no correr da década de
1920. Em 1925, o valor da produção industrial anual do Pará subira
para perto de 30.000 contos. Individualmente, a firma Martins Jorge qua-
druplicou seu capital, a fábrica de chapéus de palha e de caixas de papelão
do Pará elevou seus ativos para mil contos e diversas outras firmas de-
monstraram tendência semelhante no sentido de ampliar suas atividades.”
271
Ao mesmo tempo, porém, poucas novas fábricas surgiram e nenhuma
mudança qualitativa ocorreu na estrutura da indústria local. Ainda mais
revelador é o fato de que, visto dentro do contexo nacional, o setor ma-
nufatureiro do Pará reduz-se a algo quase insignificante. Segundo o censo
brasileiro de 1920, Belém era indiscutivelmente o principal centro indus-
trial da Amazônia, mas ocupava apenas o décimo lugar na escala nacional,
ficando para trás até mesmo de São Luís, a modorrenta capital do vizinho
estado do Maranhão. Assim, dificilmente se poderá aceitar a meia dúzia
de relatos de êxitos individuais como indício de um ressurgimento in-
dustrial mais amplo. Na verdade, estando o interior do Pará nas garras
de uma grave depressão e a população urbana em declínio, tal desenvol-
vimento teria desafiado toda experiência histórica. Em última análise, a
sobrevivência do modesto complexo industrial do Pará mostra apenas que
certos setores da economia urbana eram suficientemente autônomos para
resistir à devastação dos anos da decadência. No mesmo sentido, ela tam-
bém demonstra que o processo de industrialização jamais progrediria para
além de um estágio embrionário sem a ocorrência de alterações funda-
mentais da economia regional.
Durante a decadência, eram os acontecimentos em Belém e em Ma-
naus, e não no interior, que atraíam o interesse da maioria dos observa-
dores da época. A centralização do comércio amazônico e a orientação
urbana da elite regional há muito haviam feito das duas capitais o foco
principal da atenção pública e privada, ao passo que os comerciantes e os
seringalistas do interior encontravam-se num desvantajoso statis de segun-
da classe, como parentes pobres dos grandes aviadores. Quanto aos serin-
gueiros, se não totalmente esquecidos, eram objeto de desprezo, de pie-
dade, ou de ambas as coisas. Contudo, certamente os habitantes do
interior sofreram a decadência tão agudamente quanto a população urbana
da Amazônia, e suas reações tiveram um impacto mais fundamental sobre
a economia pós-expansão. Assim, o colapso das grandes casas comerciais,
embora dramático, não é senão metade da história.
O que de fato sucedeu no interior durante o período que se seguiu à crise
inicial é difícil de apurar e de avaliar. Já em 1913, há relatos de seringueiros
que, não conseguindo mais ganhar a vida com a extração do látex, estavam
abandonando suas estradas em grande número.” Contudo, as estatísticas de
produção desses anos parecem contraditar essa versão dos fatos: embora as
exportações de borracha nunca voltassem a atingir seus níveis de 1910-12, o
272
declínio da produção foi gradativo e interrompido por aumentos ocasionais,
o que indica somente uma perda desprezível de trabalhadores. Havia, não
obstante, alguma razão de ser para os boatos de um êxodo de seringueiros, À
medida que os preços continuavam a cair, muitas das mais antigas áreas de
seringueiras do Pará e do leste do Amazonas tornaram-se de exploração não
compensadora, obrigando os seringueiros a migrar quer para as áreas vizinhas
de castanha, quer para as zonas mais produtivas de seringueiras, rio acima.
Ainda antes do colapso do mercado da borracha silvestre, municí pios como
Mazagão e Almeirim haviam sofrido um declínio crônico de produção de
borracha, acompanhado de uma acentuada ascensão de produção de casta-
nha-do-pará. E há indícios de migração rio acima, em direção ao Acre, que
apresentou um aumento de 74,484 para 92.379 habitantes entre 1910 e
1920, ao passo que o Pará e o Amazonas sofreram perdas.*4
É possível, também, que a produção não declinasse drasticamente porque
os que permaneceram nos seringais dedicavam mais tempo à extração. Exa-
tamente essa foi a opinião manifestada por Joseph Woodroffe, em seu re-
latório de 1915 a respeito da atividade de extração de borracha da Amazô-
nia. Segundo esse importador inglês de borracha, os preços mais baixos
estavam obrigando o seringueiro médio a produzir mais do que antes, a
fim de obter do patrão os gêneros de primeira necessidade. Tal regime
não podia, porém, durar por muito tempo: em 1914, o preço da borracha
caíra perigosamente para perto de dois mil-réis, e tornava-se cada vez mais
impraticável para um seringueiro — especialmente se tivesse família —
pensar em tirar toda sua subsistência da extração da borracha. Era necessário
dedicar cada vez mais tempo à pequena agricultura, ou à caça e à pesca,
para suplementar a “renda” ganha com a atividade de coleta.
Em consegiiência disso, os seringalistas e os comerciantes locais en-
contravam-se diante de um dilema. Em épocas de altos preços de borra-
cha, sua estratégia básica havia sido manter o seringueiro o mais possível
dependente deles, eliminando todos os outros contatos comerciais é de-
sencorajando toda tentativa de auto-suficiência. Mas com os preços caindo
a níveis de antes da expansão, já não era viável ao patrão continuar su-
prindo sua clientela de todos os bens que consumia. Não conseguir fazê-
lo, porém, ameaçava aumentar a independência econômica e psicológica
do seringuciro e podia, finalmente, levá-lo a deixar de uma vez a coleta
de borracha. Em suma, o seringalista, ou comerciante, via-se dividido en-
tre a necessidade de cortar os custos e as dificuldades de manter o controle
de sua mão-de-obra.*
A solução defendida por todos, da imprensa paraense, passando pela
273
Associação Comercial, até o governo do estado, era a produção de gêneros
alimentícios nos seringais para substituir as importações exageradamente
caras. Idealmente, o cultivo ocorreria numa área designada pelo patrão e
o quanto possível sob sua supervisão. Supostamente, isso aumentaria a
eficiência da operação e reduziria ao mínimo a autonomia do seringuei-
ro.” Os promotores de planos como esse anteviam até mesmo uma época
em que os seringais exportariam tanto gêneros alimentícios quanto bor-
racha. Ássim, em novembro de 1914, foi com muita animação que 4
Folha do Norte noticiou a seus leitores que 4.200 quilos de feijão exce-
dente haviam acabado de chegar a Belém de um seringal do rio Javari;
e pelo tom do artigo, se poderia pensar que o acontecimento inaugurava
uma nova era para a economia da Amazônia. Semelhantemente, Ray-
mundo Pereira Brazil foi prodigamente elogiado por todos os setores da
elite por oferecer terra gratuita, transporte e assistência médica a quem
quer que cultivasse cereais, algodão, café, ou fumo, em Itaituba.
Em breve o otimismo deu lugar à frustração, quando se tornou evi-
dente que o tão alardeado carregamento de feijão constituía um incidente
isolado. Associar agricultura e extração da maneira prescrita pela elite mos-
trou ser extremamente difícil, já que na maioria dos casos o patrão en-
frentava problemas de disciplina dos trabalhadores, esgotamento do solo,
transporte, distribuição e coordenação, para cuja solução não estava pre-
parado. Isso não quer dizer que a agricultura não tenha aumentado nas
áreas de seringueiras durante os anos da decadência; tanto as rudimentares
estatísticas de produção quanto a drástica redução nos aviamentos indicam
um crescimento na produção local de alimentos. E Joseph Woodroffe
informava seus leitores de que “quase todo seringueiro possui agora sua
roça de mandioca, feijão, milho ou banana.”*” Segundo sugere seu relato,
porém, o plantio de produtos de alimentação continuava a ser do campo
de ação do seringueiro e sua família, e não do seringalista.
À medida que progredia a decadência, a maior parte dos habitantes da
área rural teve de diversificar suas atividades econômicas para poder sobre-
viver, Nem todos os seringueiros, porém, acharam fácil ajustar-se às novas
circunstâncias. Muitos seringueiros haviam perdido o hábito da agricultura
sedentária, ou nunca o haviam adquirido, uma vez que os preços elevados
dos anos da expansão da borracha lhes haviam permitido ganhar, com
apenas seis meses de extração, o suficiente para a alimentação e até mesmo
para algo de supérfluo de vez em quando. Por certo, as condições de
trabalho eram fregiientemente terríveis, era difícil ganhar dinheiro e a
mercadoria fornecida pelo comerciante tinha preços absurdamente exorbi-
274
tantes mas eram poucos os seringueiros que precisavam recorrer à agricul-
tura para não morrer de fome. Quando a extração da borracha, por si só,
já não era mais suficientemente compensadora para manter o trabalhador
e sua família, o seringueiro tinha de acomodar-se de algum modo à nova
ordem, dentro dos estreitos limites de sua situação social e econômica. O
seringueiro solteiro conseguiria sobreviver pescando e caçando intensiva-
mente, embora esse modo de vida fosse extremamente precário. E em
algumas áreas, como no alto Tocantins, a extração da borracha podia ser
facilmente conjugada com a coleta de castanha-do-pará.”º De outro modo,
o seringueiro tinha de cultivar seu próprio alimento ou então abandonar
de vez a região.
É extremamente dificil saber quantos seringueiros terão escolhido esta
última alternativa. O censo oficial de 1920, que registrou um aumento da
população paraense durante as duas décadas anteriores, foi muito desacre-
ditado, mas as estimativas atualmente aceitas, que indicam considerável
diminuição da população, têm sido contestadas por serem muito conser-
vadoras.?! Para o que temos em vista, os dados demográficos agregados são
menos importantes do que o movimento para fora de determinadas áreas
de seringueiras — e isso parece ter-se tornado um problema para seringa-
listas e comerciantes em certas partes do Pará.”? Por certo, mesmo durante
os anos da expansão da borracha, sempre havia o risco para o patrão da
“fuga” do seringueiro para outra área, mas isso, naquela época, era em geral
um incidente isolado, e era bastante fácil encontrar um substituto. Com O
início da decadência, ao contrário, ergueu-se o espectro da emigração ma-
ciça, ameaçando a base mesma do poder econômico e político do patrão:
sua capacidade de extrair da população local um excedente comercializável.
A solução óbvia era aumentar progressivamente o emprego da violên-
cia, De fato, essa reação estava de acordo com a praxe estabelecida, já
que a intimidação física e as represálias haviam sido, desde muito tempo,
o último recurso do patrão para fazer cumprir os acordos informais com
sua clientela. E diante da possibilidade de perder sua mão-de-obra, poucos
seringalistas hesitavam em intensificar a aplicação de tais táticas. Os jor-
nais de Belém, sempre dispostos a condenar a elite rural, enquanto ab-
solviam os comerciantes mais poderosos sediados na cidade, apresentavam
inúmeras histórias de trabalhadores mantidos como prisioneiros nas áreas
de seringueiras. Um artigo em A Folha do Norte, entitulado “As vítimas
do Tapajóz”, contava a história de um seringueiro gravemente doente,
cujo patrão impedira por várias vezes que viajasse a Belém para cuidar-se,
como parte de uma campanha mais geral para imobilizar a população
Á longa decadência 275
local. O infeliz seringueiro conseguiu, afinal, fugir da área, mas não antes
de ter recebido várias surras de chicote.” Jornalistas solidários aos serin-
gueiros deploravam também a difícil situação dos que conseguiam escapar,
já que a massa de ex-seringuciros, que tanto aumentava o número dos
pobres da cidade, vivia de modo geral em habitações de qualidade inferior,
abarrotadas ce em más condições sanitárias.”
Talvez o emprego mais eficiente da intimidação física tenha ocorrido
no alto Tocantins por volta do fim da década. Área em que predominava
a produção de caucho, sofrera pequena perda de população nos anos ime-
diatamente seguintes ao colapso, a despeito dos baixos preços e da des-
truição das árvores, devido à presença ali de enormes castanhais, A seguir,
com a deflagração da Primeira Grande Guerra, a demanda por castanha-
do-pará caiu verticalmente e os coletores começaram a abandonar em
massa o município de Marabá. Quase simultaneamente, uma disputa en-
tre o chefe político local e o intendente resultou num conflito armado,
que levou à declaração da lei marcial e a severas restrições ao deslocamento
para fora do município. Em poucos meses, o coronel (que era também
o principal comerciante de Marabá) havia chegado a um acordo com o
governo do estado e instaurado novo governo no município, No entanto,
seus capangas permaneceram fortemente armados e a proibição de des-
locar-se para fora da área continuou em vigor até fins de 1919. Nesse
ano, Marabá exportou apenas 5.396 hectolitros de castanhas-do-pará, mas
em 1920, com a subida de preços, o município embarcou 17.878 hec-
tolitros; em 1926, a produção subira para 120.417 hectolitros. Eviden-
temente, os esforços do chefe político local para sustar o êxodo dos se-
ringueiros foram regiamente compensados.
Contudo, na maior parte dos casos, a violência mostrou ser uma pa-
nacéia de eficiência limitada. Uma vez que o patrão não tinha certeza de
poder encontrar substitutos para seus seringueiros, era, em certa medida,
limitada a sua capacidade de maus-tratos. Na maior parte das áreas, tam-
bém era difícil limitar a mobilidade dos seringueiros. A menos que um
patrão pudesse contar com toda a cooperação das autoridades locais —
o que fregientemente não sucedia nessa década de turbulência política e
econômica —, havia pouca chance de conseguir evitar a saída de serin-
gueiros insatisfeitos. A passividade do seringueiro tinha também seus li-
mites: a morte de um seringalista acriano e seu filho, por seringueiros
que haviam sido enganados em suas contas, pode ter sido um incidente
isolado, mas basta um assassinato desse tipo para destruir a autoconfiança
de um patrão.é Assim, o caminho mais prudente que um seringalista,
276
ou comerciante, podia escolher era, em vez de recorrer à violência, adi-
mitir certa redução no volume de mão-de-obra disponível e, simultanea-
mente, fortalecer as relações paternalistas com os que permanecessem.
Mesmo depois de um patrão ter conseguido consolidar uma clientela
estável, seus problemas ainda estavam longe de se resolver. Poucos eram os
aviados que não haviam contraído dívidas muito grandes com casas comer-
ciais de Belém, e menos ainda os que tinham recursos ou intenção de
saldá-las. Mas uma casa aviadora, no desespero de tentar evitar a bancarrota,
podia decidir quebrar as regras do jogo e fazer executar a hipoteca de um
seringalista, ou arrestar o barracão de um comerciante. E o patrão que
escapasse a esse destino desonroso podia, não obstante, ver-se sem um
“correspondente” em Belém, uma vez que a maior parte das grandes casas
comerciais estava fechando as portas. Com dinheiro e crédito extremamente
apertados, tal perda podia deixar o patrão sem acesso aos aviamentos, o que
forçosamente o obrigaria a encerrar o negócio, ou a funcionar na base do
dinheiro.”
Havia, contudo, certas condições que ajudavam a preservar o sistema
de aviamento, ainda que sob forma drasticamente reduzida. Após anos
de participação numa economia comercializada, os habitantes da zona ru-
ral não podiam retornar com facilidade a um modelo de completa auto-
suficiência no complexo meio ambiente amazônico.”* Os seringueiros e
os “castanheiros” também estavam inteiramente acostumados a diversos
artigos industriais, como armas de fogo, tecidos de algodão, utensílios
domésticos e remédios.” A longo prazo, a desintegração da vida agrícola
indígena, associada a esses novos hábitos de consumo, é que salvaram a
rede de aviamento. Para garantir o próprio acesso a alimentos e bens
manufaturados suficientes, o caboclo tinha de produzir um excedente co-
mercializável. E o modo mais fácil de fazê-lo, mesmo durante os piores
anos da decadência, era extrair borracha ou coletar castanhas-do-pará e
vendê-las ao aviador local.
A turbulência política que se espalhou por toda a Amazônia, entre
1910 e 1912, coincidiu de maneira tão perfeita com o colapso econômico
da região, que é tentador estabelecer uma relação causal direta entre as
duas séries de acontecimentos. Seria extremamente conveniente vincular
a derrocada da máquina de Lemos, que dominara livremente o Pará por
mais de uma década, aos reveses financeiros e às perturbações sociais dos
primeiros anos da decadência. Não obstante, os acontecimentos na esfera
277
política faziam parte, claramente, de um movimento nacional muito mais
amplo que, em nível local, era ajudado pela quebra do mercado da bor-
racha, ainda que não tivesse qualquer ligação direta com ele.
No correr dos dois últimos anos da expansão da borracha, os adversários
de Antônio Lemos já haviam começado a destruir pouco a pouco seu
controle absoluto da política paraense. Num gesto de independência de
última hora, Augusto Montenegro se opusera à escolha, feita por Lemos,
do juiz Antônio Acatauassá Nunes para sucedê-lo no palácio do governo,
apoiando, em vez dele, o popular secretário do Partido Republicano, João
Antônio Luiz Coelho. Tudo indicava que Coelho fosse “lemista” fiel, mas
o velho chefe do Partido Republicano temia sabiamente que Coelho pu-
desse utilizar os contatos que fizera como secretário para adquirir poder
político real — do mesmo modo que Lemos havia utilizado aquele cargo
para eliminar Lauro Sodré, Mas o Montenegro, com o apoio entusiástico
do PRP, levou avante a indicação e Coelho assumiu como governador em
fevereiro de 1909.100
No segundo ano de seu mandato, Coelho já começara a demonstrar sua
decepção com a máquina “lemista”. O passo mais importante na direção
da independência foi dado pelo governador, quando fez saber aos inten-
dentes dos municípios do interior que só concederia benefícios se as soli-
citações lhe fossem dirigidas diretamente e não a Lemos. À seguir, começou
a fazer nomeações para a administração sem consultar Lemos, até mesmo
escolhendo propositadamente indivíduos que não estavam entre os prefe-
ridos do velho chefe. Mas a verdadeira peça de resistência de Coelho foi
ter concedido “anistia” aos mais encarniçados adversários de Lemos, os
intransigentes “lauristas”. Temerosos de represálias físicas, eminentes pa-
raenses, como Eneas Martins, Innocêncio Serzedelo Correa e, claro, o
próprio Lauro Sodré, viviam praticamente no exílio desde o início do
século, mas Coelho assegurou-lhes que garantiria sua segurança se regres-
sassem a Belém.!º!
Ainda que a decisão de Coelho de romper com Lemos se originasse,
em parte, de ambição e antagonismo pessoais, havia outras forças, mais
profundas, que contribuíram para causar a cisão do PRP. Com o correr
dos anos, Lemos havia constituído uma sólida coterie de amigos íntimos
e de sócios comerciais que recebiam a parte do leão dos benefícios e pri-
vilégios de que o chefe dispunha, À então existente concentração do pa-
trocínio num círculo reduzido de seguidores significava, inevitavelmente,
que Lemos acabaria deixando de lado determinados membros poderosos
da elite política e provocando o afastamento de pelo menos alguns po-
278
líticos que faziam objeções a seus métodos corruptos. Por exemplo, Vir-
gilio de Mendonça, “lemista” de longa data e conselheiro municipal, rom-
peu afinal com Lemos, em 1910, quando o chefe do PRP propôs a con-
cessão, por noventa anos, de uma enorme faixa de terra pantanosa nos
arredores de Belém ao comerciante Salvador Ferreira Costa, com a con-
dição de que este a “embelezasse c desenvolvesse”. Nessa mesma época,
os lojistas de Belém organizaram um protesto contra as taxas cobradas
pela coleta do lixo, que iam para os bolsos de Francisco Bolonha, colega
de Lemos. Ássim, quando Coelho estava prestes a atuar contra Lemos,
contava com considerável apoio local,"
Nessa conjuntura, os acontecimentos em nível nacional influfam na po-
lítica regional e contribuíram para alargar ainda mais a brecha entre o go-
vernador e o chefe político. A eleição presidencial de 1910, que lançou Rui
Barbosa contra o Marechal Hermes da Fonseca, provocou uma onda de
atividade política sem precedentes por todo o Brasil, uma vez que era a
primeira vez na história do país que a presidência estava sendo seriamente
disputada. De fato, a campanha “civilista” de Rui Barbosa mostrou-se efi-
ciente o bastante para dividir os votos em muitos estados, e apenas uma
estratégia conjunta de fraude eleitoral garantiu a vitória de Hermes da Fon-
seca, que era o candidato da máquina e o favorito de Pinheiro Machado.!3
A eleição, por si só, causou poucas divergências no Pará. Coelho, não
desejando ofender o líder gaúcho do Senado, uniu-se a Lemos no apoio a
Hermes da Fonseca. Até mesmo Sodré, que de modo algum mantinha boas
relações com Pinheiro Machado, apoiou Hermes da Fonseca como defe-
rência às estreitas relações que continuava a manter com o exército.!í Mas
a áspera controvérsia que se seguiu às eleições em outros estados nortistas
fez multiplicar rapidamente uma série de campanhas regionais com vistas
a desalojar do poder as diversas oligarquias firmemente estabelecidas que,
por tantos anos, haviam dominado a política nessa parte do país. Esses
movimentos “salvacionistas”, que conseguitam obter apoio popular gene-
ralizado nas empobrecidas cidades do Nordeste, acabaram com a máquina
de Rosa e Silva em Pernambuco, expulsaram os Accioli no Ceará, e instau-
raram novas lideranças na Bahia, Espírito Santo e Amazonas. Em termos
de política e ideologia, a maioria desses salvacionistas não representou um
afastamento muito significativo em relação aos antigos regimes; de fato, em
alguns estados, essas “missões de resgate” foram até mesmo arquitetadas
pelo tão conservador Pinheiro Machado. Ocasionalmente, no entanto, o
movimento fugiu ao controle do caudilho, promovendo a queda de chefes
do partido, como Lemos, que o haviam servido fielmente por muitos anos.
279
Consumado oportunista, como sempre, Pinheiro Machado, à lealdade dos
seguidores seus que tombaram, retribuiu, em geral, oferecendo seu apoio
aos que os sucederam.!º
Sentindo que sua posição se tornava cada vez mais insustentável, Lemos
renunciou discretamente ao cargo de intendente de Belém, em junho de
1911. A magnanimidade inesperada desse gesto só serviu para convencer
seus inimigos — e com boas razões — de que Lemos planejava manter-se
à sombra até que as coisas acalmassem, para então encenar uma brilhante
reentrée. 99 Se é verdade que Lemos articulava esse plano, ele foi completa-
mente contrariado pela maré crescente de sentimento anti-“lemista”. Nos
doze meses que se seguiram, o contingente de trabalhadores e funcionários
públicos desempregados ou não pagos aumentou enormemente, fornecendo
uma fonte disponível de protesto popular contra o chefe político por todos
desprezado. Esse tipo de demonstrações de massa constituía um aconteci-
mento novo na política paraense, e muito do tumulto que se seguiu poderia
parecer a típica “violência de massa” difusa. Porém, os alvos escolhidos para
as ações da multidão indicam uma orientação muito mais determinada. Por
exemplo, em 1912, os amotinados atearam fogo à maioria dos quiosques
da cidade — num evidente ataque contra Francisco Bolonha, que recebera
essa lucrativa concessão por manter uma estreita amizade com Antônio
Lemos.!9”
Durante todo esse período de intrangiiilidade, os editores de A Folha do
Norte dedicaram a estimular o clamor público contra a velha guarda, me-
diante ataques especialmente violentos contra Lemos e seus companheiros.
Após anos de perseguição pela máquina do PRP, evidentemente os “lauris-
tas” não iriam sentir-se seguros até que Lemos tivesse sido obrigado a
renunciar a todos os cargos públicos e fosse afastado da política paraense.
Desse modo, recorreram a toda espécie de insultos ou acusações para enfia-
quecer a posição dos “lemistas” e acabaram por rebaixar-se ao uso de
escandalosas mentiras em seu esforço final para dar fim ao velho regime.
Em agosto de 1912, Lauro Sodré anunciou seu tão esperado regresso ao
estado natal. Essa visita, coincidindo com os seis últimos meses de gestão
de Coelho, ofereceu excelente pretexto para a propaganda “laurista” e para
manifestações de apoio popular ao Partido Republicano Federal. Mais im-
portante ainda, possibilitou que 4 Folha do Norte “revelasse”, nos termos
mais apavorantes, um complô “lemista” para assassinar Sodré.'8 Uma vez
que Lemos e os poucos companheiros que lhe restavam nada tinham a
ganhar com um plano como esse, parece mais do que evidente que o complô
não passava de pura invenção. Mas o fato de os habitantes de Belém terem
280
levado a história extremamente a sério dá bem a medida tanto da hostilidade
pública contra Lemos, quanto de sua reputação de afeito à crueldade.
De qualquer modo, os adversários de Lemos haviam preparado bem o
terreno. Em 28 de agosto, um “agressor” não identificado disparou um tiro
na direção de Sodré em meio a um comício ao ar livre; o público presente
reagiu com um ataque imediato à sede de 4 Província do Pará. No dia
seguinte, uma multidão de funcionários públicos, marinheiros, estivadores
e trabalhadores desempregados atacou a casa de Lemos e arrastou o antigo
chefe para a rua. A multidão dirigiu-se, então, para a praça principal —
com seus líderes anunciando sua intenção de linchá-lo —, só sendo detidos
por Virgílio de Mendonça, o novo intendente de Belém. Com estilo me-
lodramático que sabia a teatro, Mendonça intercedeu magnanimamente em
favor do adversário, salvando assim seu antecessor de toda e qualquer outra
humilhação. Não obstante, Lemos teve de tomar o primeiro navio para
Lisboa para escapar a outras agressões e passou no exílio os dois anos res-
tantes de sua vida.!º”
Com a partida de Lemos, a vitória “laurista” parecia finalmente com-
pleta. De fato, logo a seguir João Coelho afastou-se do cargo por motivo
de doença e deixou o campo inteiramente aberto para o PRE O novo
partido no poder indicou imediatamente seu antigo líder para a governança,
mas o governo de Hermes da Fonseca preferia um candidato mais conci-
liatório e o próprio Sodré mostrava-se pouco interessado em assumir o
governo do estado num momento tão conturbado. Decidindo manter por
enquanto sua cadeira no Senado Federal, Sodré transferiu a indicação para
Eneas Martins, então ministro das Relações Exteriores, dono de A Folha do
Norte, e um dos “lauristas” mais dedicados e eminentes do Pará."º
A tarefa passada a Martins não era nada invejável, sob vários pontos de
vista. Além da intrangiúilidade e da desorganização política que continua-
vam, Martins iniciou seu mandato como governador durante os anos mais
difíceis da decadência. Com Coelho, o governo estadual funcionara a partir
da suposição de que a crise era apenas temporária e, assim, deixara de realizar
quaisquer ajustes de maior monta na situação tributária. Em consegiiência
disso, Martins teve de administrar todas as obrigações financeiras dos anos
de expansão com um orçamento drasticamente reduzido. Em termos de
receita do estado, a situação passou rapidamente de mal a pior. Embora a
economia de exportação parecesse muito abatida entre 1911 e 1914, viu-se
que esses anos não haviam sido senão uma amostra da devastadora depressão
comercial que se instalou após a deflagração da Primeira Grande Guerra.
Com o comércio internacional seriamente desintegrado pelo conflito euro-
28]
peu, a receita do Pará com a exportação caiu de 9.893 contos, em 1912,
para apenas 4.430 contos em 1914!!!
Evidentemente, era preciso tomar algumas medidas financeiras draco-
nianas. Durante seu mandato, Martins cortou o orçamento de obras pú-
blicas no limite da manutenção dos serviços existentes, cancelou todos os
subsídios à navegação, exceto para as linhas que funcionavam nas vizinhan-
ças de Belém, e anunciou que nenhuma vaga seria preenchida no serviço
público a menos que o cargo fosse absolutamente necessário ao funciona-
mento do estado. Porém, para cada despesa que podia ser reduzida ou
eliminada, correspondiam outras que tinham de ser integralmente atendi-
das, tais como os pagamentos relativos aos empréstimos estrangeiros con-
traídos pelo estado em 1901, 1907 e 1910. Mesmo depois de feitos os
diversos cortes, as despesas anuais normalmente ultrapassavam o total da
receita arrecadada em até 50%.H?
Para o enorme contingente de funcionários públicos, as consegiiências
da insuficiência de receita foram imediatas e graves. Durante todo o tem-
po da expansão, membros da elite tradicional e descendentes de famílias
paraenses outrora prósperas haviam procurado avidamente conseguir um
emprego nas administrações estadual ou municipal. Os salários eram re-
lativamente elevados, abundantes as oportunidades de renda adicional, e
os níveis superiores do serviço público ofereciam posições de considerável
prestígio e poder político. Alguns burocratas do governo, como os irmãos
Chermont, ingressaram no serviço público apenas para suplementar a ren-
da que já possuíam, proveniente de imóveis da família, ou para manter-se
ativos na área política; muitos outros, porém, dependiam de seus salários
ou pensões como o único meio de sustento, Esse último grupo é que
sofreu a maior desgraça e privação, à medida que os governos estadual e
municipal começaram cada vez mais a falhar em seus pagamentos. Se-
gundo o relato de um vice-cônsul francês residente no Pará, que se com-
padecia sinceramente com o sofrimento de seus colegas amazônicos, o
funcionário público médio fora realmente reduzido a um estado de pe-
núria pela deterioração da economia regional.
Mal se pode imaginar a situação angustiosa imposta aos funcionários amazônicos.
(...) Magistrados, professores, empregados das diversas repartições públicas, apo-
sentados, etc., não têm podido tocar em seus vencimentos desde há um ano, ou
dezoito meses, alguns desde mais de dois anos. Lutam, literalmente, contra à
miséria, perdendo ou pelo menos comprometendo sua independência moral. O
Presidente do tribunal de uma sede administrativa do Pará anuncia oficialmente
282
ao Governo que já não pode comparecer às audiências porque não possui mais
vestes decentes; e como se lhe recusa a paga de qualquer parcela do que o Estado
lhe deve, um grande jornal da Capital abre subscrição em seu favor, (...) Um juiz
do Território Federal fecha as sessões do tribunal declarando que, sem receber os
vencimentos há longo tempo, vê-se obrigado a abandonar o posto para evitar a
morte da família à fome. (...) [Citação traduzida do francês para o português por
Roberto Santos.)'P
Como a administração federal se recusasse a oferecer ajuda e com a
economia de exportação deslizando para uma decadência crônica, a única
solução para as dificuldades do governo estadual era mais um empréstimo
do exterior. Assim, após dois anos de luta para equilibrar as contas, Martins
resolveu romar emprestadas 1.070.000 libras da casa bancária inglesa de
Seligman Brothers. Esse empréstimo permitiu-lhe organizar as finanças do
estado e pagar os atrasados aos arrasados funcionários públicos do Pará.
Possibilitou, também, que o governo consolidasse os pagamentos relativos
aos empréstimos externos anteriores e suspendesse qualquer obrigação adi-
cional por um período de quatro anos. Certamente, o empréstimo de 1915,
elevando a dívida externa total do governo para 3.039.300 libras, aumentou
em muito os encargos financeiros das administrações subsequentes. Além
disso, Martins teve de acrescentar à longa lista de garantias do empréstimo
os impostos sobre o álcool e o fumo, bem como a renda do matadouro
explorado pelo estado, aprofundando ainda mais, com isso, as obrigações
externas e prejudicando futuros programas de desenvolvimento. Conside-
rando, porém, a situação daquele momento, a decisão do governador parece
ter sido justificada e inevitável,
Contudo, mesmo com esse empréstimo, as dificuldades financeiras atua-
vam como uma pressão constante sobre a administração de Martins. Por
isso mesmo, é admirável que ele tenha sido capaz de realizar tanto quanto
fez durante seus quatro anos de mandato. Com respeito à economia extra-
tiva, suas realizações foram necessariamente modestas, uma vez que o go-
verno federal continuava a negar-lhe apoio financeiro. Ele instituiu um
decréscimo anual gradativo do imposto de exportação sobre a borracha, é
concedeu isenções parciais ou integrais de imposto para a borracha que
tivesse sido cultivada, ou preparada para venda em usinas de processamento
em larga escala.'!! Mas com poucos recursos e com o mercado da borracha
cada vez mais em baixa devido à guerra na Europa, nem mesmo seu maior
empenho podia ter algum efeito nessa área. Em vez disso, concentrou-se
na renovação do tão caluniado setor agrícola do Pará.
283
O programa do governador para o desenvolvimento agrícola tinha duas
metas principais: aumentar a produção, tornando assim o Pará auto-su-
ficiente em gêneros alimentícios, e estimular o cultivo de produtos tais
como algodão e fumo, que pudessem ser vendidos no exterior e no mer-
cado interno. À implementação concreta desses programas implicava dis-
tribuição de sementes, importação de máquinas de beneficiamento, e re-
dução de fretes para produtos como algodão e cacau em navios e em
ferrovias subsidiados pelo estado, Enquanto isso, em consegiiência da seca
de 1915 no Nordeste, o governo de Martins cuidou de assentar 532 fa-
mílias de retirantes nos municípios de Quatipuru e Igarapé Assu, na região
de Bragantina 5
Uma vez que a região costeira e de Bragantina eram, sem sombra de
dúvida, as áreas agrícolas mais importantes do estado, os que ali viviam
foram os principais beneficiários da assistência técnica e da ajuda material
oferecida pelo governo. Por algum tempo, pelo menos, os resultados da
campanha foram nada menos que excepcionais. Entre 1914 e 1916, a quan-
tidade de arroz e de farinha de mandioca transportada para Belém pela
Estrada de Ferro de Bragança aumentou de 160% e de 90%, respectiva-
mente. Nesse mesmo período de três anos, a quantidade de milho triplicou
e o algodão passou de desprezíveis 800 quilos para quase 87 toneladas.
Nessa época, até mesmo no interior a produção agrícola crescia em ritmo
impressionante. Dados sobre as “exportações” dos municípios do interior
para a capital, relativos aos anos de 1910 a 1914, mostravam aumentos
espantosos dos embarques de farinha de mandioca, milho e arroz, bem
como aumentos consideráveis de outros produtos. E essas estatísticas eram
apenas amostra dos dados para 1917 e 1918, que apresentam aumentos
enormes em quase todas as safras e produtos (ver Tabelas 10 e 11). Resultado
disso é que, em 1918, o Pará estava entre os dez maiores produtores do
Brasil de milho, feijão e arroz, e ocupava a quarta colocação como produtor
de farinha de mandioca.H6
Parte desse aumento da produção agrícola teria ocorrido sem o estímulo
do governo, à medida que a população rural do Pará abandonava pouco a
pouco as atividades de coleta em tempo integral. Essa passagem, porém,
era, por si só, muito gradativa para ser responsável por taxas tão rápidas de
crescimento. Além disso, para certos produtos o papel da “intervenção do
estado” era de importância excepcional. Uma das preocupações básicas do
governo de Martins foi promover o plantio do algodão, e embora essa
campanha não tivesse oferecido nenhum resultado considerável senão após
ele deixar o cargo, o aumento espantoso da safra de algodão ao fim da
284
TABELA 10
Produtos agricolas transportados para Belém pela Estrada de Ferro
Belém—Bragança, anos escolhidos, 1914-18 (quilos)
Produto 1914 1915 1916 1918
Álcool (litros) 7.001 80.511 123.226 22418
Feijão 318.951 204.770 322.818 812.633
Cachaça (litros) 540.249 718.615 816.492 742.622
Milho 1.823.283 3.609.353 5.226.544 6.356.941]
Algodão 800 15.959 86.717 526.795
Frutas 598.998 519.350 408.097 310.934
Farinha de mandioca 8.248.177 11.328.504 15.438.271 13.922.522
Arroz 413.540 1.032.804 1.085.117 2.191.197
Tabaco 117.585 191.743 202.689 180.483
FONTE: Revista Comercial do Pará (Uljan/1919, p. 17.
TABELA 11
Produtos agrícolas embarcados para Belém do interior do Pará (quilos)
Ano Feijão Milho Farinha de Arroz Tabaco
matdioca
1910 10.697 19.946 1.424.176 3.840 249.050
1911 34.109 54.818 2.925.721 660 451.121
1912 14.520 43.625 3.365.304 510 390.507
1913 117.480 166.386 4.873.524 3.760 490.105
1914 65.922 132.064 11.250.914 53.314 405.791
1917 504.423 1.009.946 16.124.904 761.399 617.856
FONTE: Relatório da Associação Comercial do Pará (1914), anexos; Revista Comercial do Pará
(30/1/1918), p. 12.
nNoTA: Não inclui mercadorias transportadas para Belém pela Estrada de Ferro Belém-—Bra-
gança.
década era claramente produto de seus esforços. E não era um pequeno
resultado: em 1916, o Pará produzia ainda desprezíveis quantidades da fibra,
mas em 1919 sua produção estava beirando as 2.000 toneladas.!'”
Mais modesto foi o êxito conseguido pelo governo de Martins no setor
da pecuária. Em 1913, após uma década de estagnação, a população bovina
285
do Pará crescera para apenas 540.980 cabeças. Nos seis anos seguintes,
segundo o censo de 1920, o número passou para 615.482, tornando o Pará
o décimo estado do Brasil em criação de gado. Como a população humana
do Pará decresceu durante esse período, os 15% de aumento em gado não
eram nada desprezíveis, como pode parecer à primeira vista. Contudo,
comparados com dados relativos a um período muito anterior, os resultados
do censo de 1920 não eram muito animadores: em 1880, o Pará já possuía
355.451 cabeças de gado; quatro décadas depois, a população do estado
quase triplicara, mas a oferta de gado ainda não havia duplicado."'8
Reconhecidamente, a amplitude do apoio governamental aos pecuaristas
não era proporcional aos problemas financeiros e ecológicos que precisavam
ser resolvidos. À não ser pelo financiamento de uma “fazenda-modelo” e
pelo subsídio a uma linha de navegação entre Marajó e Belém, o governo
abandonou de vez os criadores a seus próprios recursos. A experiência an-
terior mostrara que, em tais condições, os pecuaristas tinham pouco incen-
tivo para ampliar seus rebanhos, preferindo, em vez disso, controlar a cota
para abate a fim de manter os preços elevados. Assim, muito embora a
oferta de carne houvesse aumentado no correr da primeira década da de-
cadência, e a população de Belém tivesse decrescido, em 1923 a cidade
voltava a sofrer de grave escassez de carne,"!º
Embora os lucros obtidos com a pecuária jamais tenham sido tão sen-
sacionais quanto os conseguidos no negócio da borracha, a pecuária mos-
trou-se, afinal, uma fonte de renda muito mais firme, e as fazendas de
criação uma base financeira muito mais confiável. Durante todo o período
da expansão da borracha, até mesmo os criadores de Marajó que não
cuidavam de suas propriedades puderam prosperar graças à inflação do
preço da carne e, bem antes do colapso do mercado da borracha, algumas
casas aviadoras, abaladas por crises de preço, haviam recorrido a emprésti-
mos de pecuaristas amigos.?º Mas a comprovação real da relativa estabili-
dade do setor pecuário veio com a decadência, Centenas de casas comerciais
de Belém e de Manaus quebraram, mas a maior parte dos pecuaristas
continuou solvente e próspera. E entre os sobreviventes encontravam-se
não só famílias tradicionais de Marajó, como os Lobato, os Pombo e os
Bezerra, mas também arrivistas, como os Monatd, os Mourraille, e Júlio
Weinberger.'!
Não é difícil perceber quais as razões por que a pecuária continuava
sendo um negócio lucrativo. No auge da expansão da borracha, mais da
metade do gado que chegava ao matadouro de Belém vinha de fora do
estado, em navios por ele subsidiados. Com o colapso do mercado da
286
borracha, houve uma queda gradativa da demanda, mas também uma
redução drástica dos subsídios à navegação c uma queda simultânea nas
“importações” de gado. Por isso, ainda em 1917, a carne em Belém cus-
tava ainda 1$300 (aproximadamente 40 centavos de dólar) o quilo, Além
disso, uma vez que a queda na demanda ameaçava fazer baixar conside-
ravelmente os preços, os pecuaristas começaram a embarcar seu gado para
mercados fora do estado, o que levou imediatamente o governo paraense
a considerar a fixação de um imposto de “exportação” proibitivo.'?
Considerando as experiências de criadores, importadores e industriais,
a economia paraense não se extinguiu de maneira completa com o colapso
do mercado da borracha. Por mais grave que possa ter sido a decadência,
os relatos que descrevem a região como tendo entrado em total agonia
cxageraram a extensão da calamidade. Não obstante, havia sérios limites
à vitalidade da economia. A sobrevivência da atividade pecuária permitia
que um punhado de famílias da elite mantivesse um estilo de vida con-
fortável e uma posição de destaque na política do estado, mas tinha efeito
muito pequeno sobre os problemas mais globais do desenvolvimento re-
gional. De fato, um negócio de gado florescente não garantiu sequer uma
oferta de carne a preços convenientes para a população urbana em péssima
situação econômica, Quanto à agricultura, os resultados imediatos podem
ter sido extremamente encorajadores, mas a longo prazo nenhum dos pro-
gramas de Martins resolveu os problemas fundamentais que afligiam a
agricultura comercial da Amazônia.
Programas agrícolas anteriores haviam fracassado, em parte devido a uma
avaliação extremamente irrealista do meio ambiente da Amazônia, Ão con-
trário de outros governos, porém, o de Martins reconhecia que o solo da
região não era especialmente fértil, nem uniformemente arável, Em men-
sagem de 1915 ao legislativo estadual, Martins mostrava-se contrário ao
desmatamento desenfreado das “terras altas”, por acreditar que aqueles ter-
renos eram inadequados para a agricultura regular. Um ano antes, seu ín-
timo amigo, J. Simão da Costa, publicara um artigo que examinava as
deficiências de cálcio e outros aspectos negativos dos solos de Bragantina, '?
Contudo, os mesmos modelos anteriores de povoamento e as modalidades
de exploração já aprovadas continuaram a orientar as políticas agrícolas do
governo, Continuava-se a considerar que os municípios do interior perten-
ciam à esfera de ação dos “extrativistas”: a não ser por algum estímulo ao
cultivo mais extensivo de mandioca, cacau e arroz nessas áreas, o governo
tinha em geral como certo que a borracha e a castanha continuariam a
constituir a base de sua economia.
287
Isso fazia da região Bragantina e dos municípios costeiros, com sua alta
concentração de pequenos agricultores, o centro principal de desenvolvi-
mento agrícola. Porém, os fertilizantes necessários para manter o cultivo
continuado do solo nessas áreas estavam fora do alcance tanto dos próprios
pequenos proprietários, quanto do orçamento do estado para a agricultura,
e teriam tornado não lucrativa a produção de safras de baixo valor. !4 A
única solução possível para o problema do esgotamento do solo era o mo-
delo indígena tradicional de cultivo semimigratório. Contudo, esta maneira
de agir parecia inconcebível aos defensores do desenvolvimento rural, pois
por certo a encarariam como contrária à agricultura comercial e a colônias
agrícolas estáveis e “civilizadas”, Assim, o resultado final dos programas
governamentais foram cinco ou dez anos de abundantes colheitas, seguidos
de deterioração do solv e de acentuado declínio da produção .!2
Ainda que muitas das realizações de Martins não tenham resistido à
prova do tempo, ele foi um administrador incomumente enérgico é inova-
dor, atuando em circunstâncias das mais adversas. Infelizmente, por mais
que ele tenha sido bem-sucedido no terreno da economia, seu êxito se viu
frustrado por sua estratégia política global inútil, Apesar de sua história de
dedicação à causa do “laurismo”, sua eleição para governador deveu-se à
interferência federal na política paraense, e esse fato determinou grande
parte de seu comportamento político subsegiiente, Procurando cultivar o
apoio em nível nacional, aderiu abertamente a Pinheiro Machado, para
grande repugnância de seus antigos aliados no campo “laurista”. Então, à
medida que se ampliava o abismo entre ele e os que antes o apoiavam,
Martins foi pouco a pouco fortalecendo suas ligações com personalidades
locais fortemente contaminadas pelo “lemismo”, tais como Arthur Lemos,
José Porphírio de Miranda e até mesmo Newton Burlamaqui, o menospre-
zado magistrado de Gurupá e Sousel, que ele nomeou chefe de polícia,"
Sua abordagem da política municipal era igualmente malformulada.
Nessa época, por todo o Brasil, os governos estaduais procuravam con-
trolar a “autonomia excessiva” dos primeiros anos da República, mediante
emendas constitucionais que tornavam o cargo de intendente municipal
um posto a ser preenchido por nomeação. No Pará, esse tipo de reforma
justificava-se particularmente, uma vez que muitos dos municípios do in-
terior haviam, independentemente, contraído pesadas dívidas e sobreta-
xado produtos locais, prejudicando com isso a implementação de políticas
econômicas do estado. Não obstante, Martins tratou dessa reforma de
uma maneira tal, que conseguiu afastar líderes locais de todas as facções
políticas. Os “lauristas”, por exemplo, criticavam-no por não conseguir
288
afastar dos cargos todos os “lemistas”, ao passo que membros da “velha
guarda” ficaram profundamente magoados ao serem sumariamente demi-
tidos de cargos que controlavam há dezenas de anos.'”
No começo de 1915, Martins rompeu formalmente com os “lauristas”
e passou para o lado de seus outrora inimigos, os “lemistas”. Mas a tensão
política realmente só atingiu seu ponto de ebulição em 1916, quando Mar-
tins anunciou sua intenção de concorrer a um segundo mandato. À partir
de então, 4 Folha do Norte, agora de propriedade do antigo companheiro
do governador, Cipriano Santos, passou a referir-se a Martins como “o
pequeno ditador”, e pregava sua deposição com a mesma linguagem vee-
mente anteriormente reservada a Antônio Lemos. Temendo o pior, o go-
vernador desistiu da eleição, mas indicou seu próprio candidato para con-
correr com Sodré. Esse ato final de provocação ocasionou um importante
levante dos “lauristas”, que, com a ajuda da polícia militar, depuseram Mar-
tins pela força. Seis meses depois, Lauro Sodré iniciou seu segundo mandato
um quarto de século depois de haver assumido
como governador do Pará
o cargo pela primeira vez, 28
Politicamente, a volta de Sodré foi uma grande vitória; economicamente,
seus resultados foram desprezíveis. A velha retórica sobre “democratização
da terra” e imigração estrangeira soou antiquada 25 anos depois e, em vista
da situação financeira extremamente difícil do Pará, chegou às vezes à beira
do ridículo. De fato, parece que o próprio governador se deu conta de que
a situação de decadência da economia regional seria um obstáculo a qual-
quer projeto que pretendesse levar a cabo sozinho, o que levou a apelar
repetidas vezes para o governo federal. Assim, o veterano de tantas batalhas
em prol do federalismo e da descentralização iniciou sua primeira fala ao
legislativo paraense com uma preleção sobre os males da autonomia exces-
siva, um apelo à ajuda federal como única possibilidade de solução para o
dilema da Amazônia, e um lembrete de que “os que teremos que dirigir os
destinos do Pará não esqueceremos jamais que elles dependem da sorte da
República”.!?? Infelizmente para Sodré, e para a elite amazônica em geral,
muitas décadas iriam passar antes que o governo central atendesse a seus
pedidos de ajuda,
À medida que a Amazônia mergulhava em total decadência, passou a
integrar as fileiras das inúmeras regiões, espalhadas por todo o Terceiro
Mundo, que prosperaram em dado momento, por força de novas deman-
das originárias das nações industrializadas, para em breve verem suas eco-
289
nomias estacarem, tão logo os recursos desejados se esgotassem, ou fossem
superados por ofertas a preços mais baratos. Na Amazônia, as dimensões
da crise no setor de exportação desafiam qualquer exagero. Entre 1910 e
1920, o preço médio da borracha “Pará fina” caiu para mais de 80% e
as exportações, para umas 12.000 toneladas. Ao mesmo tempo, a receita
pública do Pará chegou a um nível mais baixo que o de 1892 — queda
que seria ainda mais drástica se se levasse em conta a taxa constantemente
alta de inflação. De fato, corrigida a inflação, o valor total das exportações
de borracha de 1920 chega a apenas um décimo do mesmo dado para
1910, Foi tão abrupta essa queda que, em 1921, a castanha-do-pará
havia passado à frente da borracha como produto de exportação mais
valioso do Pará.
Acentuamos repetidas vezes, no corner deste trabalho, que o Pará, e a
Amazônia como um todo, não sofreu qualquer transformação social ou
econômica fundamental em consegiiência da expansão da borracha. A re-
gião saiu da era da borracha dominada ainda por um sistema de produção
que se assemelhava muito aos modelos coloniais de exploração econômica
e por um conjunto hierárquico de relações sociais que, de modo algum,
representava um distanciamento significativo da estrutura de classe tradi-
cional. Contudo, a ausência de uma “grande transformação” não nos deve
levar ao equívoco de crer que não haja ocorrido mudança alguma de im-
portância duradoura no correr do período de setenta anos, durante os quais
a borracha foi o principal produto de exportação da Amazônia.
Em primeiro lugar, mudou sensivelmente a composição da própria eli-
te, embora não drasticamente. Fora os pecuaristas de Marajó e do baixo
Amazonas e de um punhado de produtores de cana-de-açúcar nas pro-
ximidades da capital, a classe alta do Pará voltou-se predominantemente
para a atividade mercantil. Quer fossem importadores, exportadores, va-
rejistas ou pequenos industriais com interesses comerciais paralelos, os ci-
dadãos mais ricos do Pará, quase sem exceção, antes obtinham sua riqueza
do comércio do que da terra. Até mesmo os mais destacados pecuaristas
participavam amplamente do mercado da carne e de'outros produtos, em
vez de apenas criarem gado. No decorrer da era da borracha, o Pará se
tornara de fato “uma província (...) onde predomina o espírito mercantil”,
como disse D. Pedro I].!3!
Esse deslocamento generalizado para atividades comerciais teve diversas
implicações para o período posterior à expansão. Ele significava que, à me-
dida que caía o preço da borracha, a elite se voltaria para outras atividades
extrativas, como castanha-do-pará, pau-rosa e mare'ras, e não para em-
290
preendimentos rurais mais sedentários. E, na medida em que, no correr das
décadas que se seguiram à expansão, a posse da terra continuou a ser uma
preocupação menor para a elite, o valor da terra permaneceu correspon-
dentemente baixo. Como havia áreas praticamente desertas, o governo pas-
sou a estar cada vez mais disposto a conceder direitos de usufruto sobre
enormes extensões de terra a comerciantes bem relacionados que tinham
condições de pagar os impostos exigidos. Quanto aos amazônicos de me-
nores recursos, a família cabocla típica pôde, durante essas décadas, ter
acesso a um pequeno lote de terra, seja simplesmente tomando posse dele,
seja pagando um “arrendamento” sob forma de trabalho ocasional"?
Outras áreas exportadoras que mergulharam em grave decadência, como
a região cafeeira do vale do Paraíba e a açucareira da zona da Mata no
Nordeste, em geral, seguiram o destino da elite regional por um destes dois
rumos: ou os seus membros se transferiram para o Rio de Janeiro (ou outras
cidade prósperas), ou se recolheram a suas propriedades rurais, onde defi-
nharam num apagado esplendor.? Em vista da gradual redução das opor-
tunidades de trabalho no serviço público e nas profissões liberais, no correr
das décadas de 1920 e 1930, pode-se considerar quase inevitável que tenha
havido alguma migração, para fora do estado, de paraenses pertencentes às
antigas famílias da elite. Porém, talvez pela viabilidade então presente de
Belém como centro urbano, o êxodo parece jamais ter atingido proporções
consideráveis.
Quanto a recolher-se à estagnação rural, essa “opção” só se aplicaria aos
seringalistas que, durante a expansão da borracha, se situavam nas fileiras
mais baixas da hierarquia social da elite. Na imaginação popular, esses “co-
ronéis de barranco” acabaram por simbolizar a completa decadência e atraso
do interior da Amazônia durante o declínio da borracha." Provavelmente
seu isolamento econômico terá sido algo exagerado, uma vez que a maioria
desses coronéis mantinha contato com casas comerciais dos centros urbanos
e continuava a participar da economia extrativa como comerciantes locais.
Mas, isolados ou não, muitos desses homens fortes da zona rural foram
sem dúvida reduzidos pela decadência a uma condição que beirava a po-
breza, o que os levou a apegar-se firmemente às poucas ligações políticas e
comerciais, que era tudo que os distinguia de seus “súditos miseráveis. Em
tais circunstâncias, a origem familiar e as ligações tradicionais, mais do que
a riqueza material, tornaram-se os principais determinantes da posição social
e da projeção política de um indivíduo. Resultado disso parece ter sido a
elite local inflexível e hermeticamente fechada que Charles Wagley veio a
encontrar em seu trabalho de 1948 sobre um povoado paraense.»
291
As camadas superiores da sociedade amazônica, ao contrário, mostraram
ser extremamente permeáveis. A elite paraense tinha longa tradição de as-
similar indivíduos diversos vindos da Europa e de outras regiões do Brasil,
e essa tendência à abertura tornou-se ainda mais pronunciada com o início
da decadência.'* À medida que firmas portuguesas antigas e mais tradicio-
nais se dissolveram ou quebraram, imigrantes sírios, libaneses e judeus em-
preendedores acorreram para preencher o vazio, chegando finalmente a
dominar de maneira quase que completa o negócio da castanha-do-pará.
Em 1920, dois judeus sefardins encontravam-se entre os mais destacados
diretores da Associação Comercial do Pará e um outro paraense de origem
israelita geria uma das maiores casas exportadoras de Belém.!”
A permanência de determinados preconceitos profundamente arraigados
atuava no sentido de frustrar as tentativas de membros dessas minorias de
penetrar nos círculos sociais mais fechados da elite urbana, e esse tipo de
barreira provavelmente reduzia a amplitude de sua participação direta na
política local, Contudo, mesmo nessas esferas, houve alguns indivíduos de
origem “discutível” que ascenderam a altos cargos públicos ou que se casa-
ram dentro dos mais “aristocráticos” clãs paraenses.!* Tudo indica que, à
medida que a decadência continuava e os tempos difíceis se tornavam cada
vez mais duros, eram poucas as famílias tradicionais em condições de dar
mais valor a ligações sociais do que à riqueza material quando da escolha
de seus parceiros nupciais.
Mudanças na composição étnica da elite regional não implicam qualquer
transformação sócio-econômica mais profunda; mas, no caso do Pará, o
influxo de sangue novo ajudou a evitar a petrificação da classe alta. Permitiu
também que, dentro dos limites impostos por uma grave escassez de capital
e por um mercado interno insignificante, se ampliassem certos setores da
economia. Portadores de habilidades empresariais e de uma certa porção
de dinheiro, os imigrantes vindos do Oriente Médio e da Europa para o
Pará tiveram êxito em capitalizar a partir das poucas oportunidades finan-
ceiras oferecidas por uma economia em crise, Em 1925, um comerciante
libanês abriu, em Belém, a primeira fábrica de pneus do país e dois irmãos
sírios instalaram uma usina de processamento de borracha.!º Certamente
o estado de depressão do interior da Amazônia punha limites a tal tipo de
empreendimento, mas eles foram bem-sucedidos em injetar alguma vida
nos centros urbanos arruinados.
O pouco de inovação que houve na região amazônica durante o pe-
ríodo de decadência parece ter se limitado às cidades mais importantes.
Contudo, seria extremamente equivocado supor que a economia rural ti-
292
vesse retrocedido totalmente às formas anteriores à expansão da borracha.
Em primeiro lugar, mesmo aceitando a mais baixa estimativa demográfica
possível para 1920, ainda assim a população do Pará apresentaria um
aumento de 230% sobre os primeiros anos da expansão. Partes inteiras
do estado, escassamente povoadas na década de 1870, haviam sido colo-
nizadas por migrantes do Maranhão, Ceará e de outras partes do Nor-
deste, que repartiam o tempo entre atividades de coleta e de subsistência,
Depois, havia, paralelamente a “transformação” dos habitantes indígenas,
à medida que o negócio da borracha erradicava os índios de suas culturas
tribais auto-suficientes e autônomas e os obrigava a ingressar na vida co-
mercial da economia extrativa. Com isso, a expansão da borracha acelerou
enormemente e levou ao ponto mais alto um processo que começara com
as primeiras expedições porruguesas.!4º
Resultou disso uma porção consideravelmente maior da população do
interior mais diretamente ligada aos mercados nacional e mundial. Tudo
indica que o habitante rural médio, fosse ele de origem nordestina ou
indígena, já não poderia satisfazer a todas as suas necessidades sem recorrer
à rede comercial da região. Em tais circunstâncias, a afirmação de um
eminente economista brasileiro de que os habitantes rurais da Amazônia
“regrediram à forma mais primitiva de economia de subsistência” parece
evidentemente falsa.4! É verdade que, em consegiiência da crise, afrou-
xaram-se os vínculos entre aviador e aviado, na medida em que os antigos
seringueiros adquiriram maior liberdade de movimento e vieram a envol-
ver-se em variadas atividades econômicas. Mas as ligações patrão-cliente
continuavam a existir, a maior parte dos seringueiros e coletores prosse-
guia enredada no sistema do aviamento e seriamente endividada com um
patrão local.
O caráter difundido e persistente das relações de endividamento tem
sido visto, em geral, como a explicação primordial para o envolvimento
então existente do caboclo na rede comercial.? Contudo, embora as dí-
vidas servissem para consolidar os vínculos entre um cliente e seu patrão,
e para limitar a mobilidade física e social do aviado, eles não poderiam,
por si sós, ter induzido ou constrangido toda uma população a ingressar
na economia de mercado. Explicação mais convincente baseia-se nas ten-
dências históricas a longo prazo, que vêm desde a mais longínqua des-
truição da vida tribal, em grande parte da Amazônia, durante o período
colonial, e acabam produzindo as dramáticas mudanças de atitudes e de
potencialidades da população regional. Uma vez que os padrões tradício-
nais de subsistência — com sua complexa associação entre agricultura nas
293
várzeas e nas terras altas, plantio alternado, e suplementação pela caça e
pela pesca — haviam sido destruídos, a maior parte dos habitantes da
Amazônia não tinha outra escolha senão a de produzir um excedente co-
mercializável.!? Assim, décadas após o colapso da expansão da borracha,
o cabloco típico estava ainda extraindo borracha, coletando castanha-do-
pará, ou colhendo algum outro produto que pudesse ser vendido a um
longínquo mercado de além-mar.
Conclusão
Em 1906, um jornalista norte-americano, que havia sido cônsul no Pará,
informava seus leitores que a Amazônia era a “Terra do Amanhã”, uma
região que, como antes dela haviam sido os Estados Unidos, provaria ser
fonte de imensa riqueza e de oportunidades econômicas ilimitadas.! Tendo
testemunhado em primeira mão a prosperidade dos anos da expansão da
borracha, o cônsul Kerbey sentia-se bastante seguro para prever um futuro
brilhante para a Amazônia. Contudo, bastaram alguns anos para que a
insensatez de suas predições se tornasse desconcertantemente evidente. Não
só a Amazônia deixava de corresponder à sua avaliação otimista, mas a
economia da região estava praticamente arruinada e a elite política regional
reduzida a implorar esmolas do governo federal,
Não foi apenas Kerbey quem se equivocou; a maioria dos observadores
da sociedade amazônica partilhava de seu otimismo e veio a sofrer a seguir
essa mesma decepção, Poucas foram as exceções importantes, como aquele
alto funcionário paraense que preveniu o legislativo estadual de que o
progresso da Amazônia era “mais aparente do que real”. Porém, a maior
parte dos comentaristas, nacionais ou estrangeiros, havia tomado os sinais
de prosperidade e de crescimento econômico pelo que pareciam significar.
Mais ainda, a maior parte deles deixou de observar que o negócio da
borracha havia deixado intactas as estruturas básicas da economia regional,
com todos os problemas daí decorrentes.
Tão logo a ruína se abateu sobre a Amazônia, foi um pobre consolo
para a comunidade comercial local o fato de que praticamente ninguém
havia previsto o duro golpe que o plantio da hávea iria representar para o
mercado da borracha silvestre. Ademais, a queda de preços, por si só, ainda
que extremamente vertiginosa, só explicava as causas mais imediatas da crise
amazônica. Afinal de contas, a economia cafeeira de São Paulo havia en-
frentado um grande número de crises — a abolição da escravatura, uma
295
296 Conciusão
grave superabundância no mercado mundial — sem se desintegrar. Assim,
o problema central não eram as causas do próprio colapso, mas as razões
pelas quais o negócio da borracha na Amazônia mostrou-se tão vulnerável
à ameaça asiática e por que a expansão da borracha não conseguiu provocar
o aparecimento de setores econômicos alternativos que podiam ter ameni-
zado o impacto da crise.
Tem-se afirmado, no correr de todo este trabalho, que a economia da
borracha continuou a ser essencialmente pré-capitalista em suas relações de
produção e de troca, embora suprisse uma indústria estrangeira cada vez
mais desenvolvida. Devido a uma série de circunstâncias — a dispersão dos
recursos materiais, a mentalidade da população rural, a escassez inicial de
capital e as enormes distâncias a serem vencidas — desenvolveu-se um
sistema econômico no qual a produção permaneceu em grande medida sob
o controle do produtor direto, dando-se a apropriação do excedente no
nível da troca. A rede de aviamento daí resultante permitia que os membros
da nova elite da borracha, atuando como intermediários, exercessem sobre
a população rural domínio suficiente para manter a produção e os lucros.
Contudo, atuava também no sentido de refrear qualquer desenvolvimento
que pudesse ter dado origem a uma transformação fundamental Ra ECONO-
mia extrativa.
As implicações sociais e econômicas do sistema de aviamento eram de
longo alcance. Embora o sistema minimizasse o enorme risco implicado
no negócio da borracha, inibia também, de diversas maneiras, a acumu-
lação de capital. O grande número de intermediários que participavam
de cada transação fragmentava os lucros e gerava uma hierarquia de en-
dividamento. Mais importante ainda, a inabilidade do aviador em esta-
belecer controle direto sobre os trabalhadores fazia com que a taxa de
acumulação de capital permanecesse relativamente baixa, Se o patrão ele-
vava suas exigências, quer inflacionando os preços dos alimentos, quer
afirmando abertamente sua autoridade, o seringueiro podia resistir au-
mentando o tempo dedicado a atividades de subsistência, ou fugindo para
outra área de seringueiras. Quanto a progressos técnicos que poderiam
ter gerado mudanças qualitativas, a “descentralização” da produção e do
processamento da borracha imposta pelo sistema de aviamento tornava
ao mesmo tempo arriscado e dispendioso implementar determinados aper-
feiçoamentos. Então, na maioria dos casos, uma casa aviadora que quisesse
ampliar (ou mesmo manter) a produção tinha simplesmente de continuar
arregimentando e equipando novos seringueiros.
Uma vez que a elite amazônica não controlava a produção, mas a co-
Conclusão 297
mercialização do artigo de exportação, o negócio da borracha tornou-se
uma atividade extremamente especulativa, cuja margem de lucro dependia
em maior medida do momento em que se faziam as vendas e do padrão
de flutuação de preços. E ainda que todas as transações especulativas acar-
retem necessariamente riscos consideráveis, isso era especialmente verdadei-
ro para os comerciantes da borracha, já que a maioria deles (inclusive os
sócios de grandes casas aviadoras) operavam com crédito a curto prazo e,
por isso, nem sempre tinham a liberdade de escolher o melhor momento
para a venda, ou a compra. Para piorar ainda mais as coisas, as casas ex-
portadoras propriamente ditas eram de propriedade de firmas estrangeiras
altamente capitalizadas e funcionavam sob o controle delas, cujos interesses
eram frequentemente contrários aos da comunidade mercantil local. Con-
seguentemente, os aviadores tinham um papel limitado na determinação
dos preços e na acumulação de estoques — processos que afetavam inti-
mamente o êxito ou o fracasso de suas operações. Como vimos, tentou-se
por diversas vezes corrigir essa situação: primeiro, pela organização de uma
empresa de exportação subsidiada pelo estado e controlada localmente; de-
pois, solicitando ao governo federal que promovesse um programa de va-
lorização. Porém, sem um apoio firme do governo federal, os comeiciantes
locais não tiveram possibilidade de desalojar os exportadores estrangeiros
que, para proteger sua situação econômica, contavam com amplas ligações
comerciais na Europa e nos Estados Unidos — e concomitante influência
diplomática.
Os investidores estrangeiros eram, contudo, consideravelmente menos
bem-sucedidos na esfera da produção. Desanimados com o caráter “primi-
tivo” da economia extrativa da Amazônia, corporações européias e ameri-
canas tentaram, de tempos a tempos, desempenhar um papel de maior peso
na produção da borracha -— mas em vão. Embora tais corporações dispu-
sessem de recursos financeiros que superavam de longe os do patrão brasi-
leiro comum, logo descobriram que o capital, por si só, não lhes permitiria
obter uma posição preferencial em relação ao comerciante ou seringalista
local. Uma vez que os intermediários — grupo que os estrangeiros deseja-
vam eliminar — frequentemente dominavam a política local, os gerentes
norte-americanos ou ingleses de seringais não podiam esperar muita coo-
peração por parte das autoridades municipais. Mais especificamente, isto
significa que os estrangeiros não podiam empregar as táticas coercitivas
habitualmente utilizadas nas regiões de seringais contra os comerciantes
intrusos e os seringueiros renitentes. Isso acabava por se demonstrar uma
restrição grave e, finalmente, fatal, uma vez que os seringueiros resistiam
298 Conchesão
ao empenho dos estrangeiros em regulamentar e “racionalizar” a produção
da borracha. Na verdade, até mesmo o patrão tradicional, que dispunha
dos meios para a violência, aprendera que havia limites às exigências que
podia impor aos seringueiros. Sem o auxílio de força física, ou de um re-
lacionamento patrão-cliente há muito existente, os estrangeiros simples-
mente não podiam estabelecer um controle adequado de seus seringais e
dos seringueiros que ali viviam.
Deve-se assinalar, também, que essas novas corporações para a produção
da borracha, apesar de toda sua pregação sobre “métodos empresariais mo-
dernos”, vinham para a Amazônia sem ter desenvolvido qualquer técnica
nova quer para a extração, quer para a coagulação do látex. É bem verdade
que já estavam em curso na Inglaterra experimentos de plantio da hévea,
mas tais empreendimentos estavam ainda em estado embrionário, e os mé-
todos que se desenvolviam para o plantio da seringueira eram adequados
às colonias britânicas na Ásia, mas não para a região amazônica. Assim, os
investimentos estrangeiros pretendiam impor relações capitalistas de pro-
dução na Amazônia, mas não haviam ainda descoberto um meio de sobre-
pujar os obstáculos ambientais e humanos que se antepunham a tal objetivo.
E sem inovações técnicas de monta, não havia incentivo que promovesse a
transformação das relações de produção e de troca existentes.
Ão mesmo tempo que inibia o processo de acumulação de capital e de
mudança tecnológica, a estrutura peculiar da economia da borracha con-
tribuía também para refrear o desenvolvimento de um mercado interno
significativo. Com o sistema de aviamento, raramente os seringueiros dis-
punham de muito dinheiro e comumente dependiam de um só comerciante
local para obter a pequena quantidade de mercadorias que recebiam, a
preços exorbitantes, em troca de sua borracha. E, no caso de a mercadoria
fornecida pelo patrão se mostrar insuficiente para suas necessidades, podiam
recorrer a atividades de subsistência, como a caça, a pesca, ou o plantio de
mandioca, para cobrir a diferença — situação que dificilmente ajudaria a
criar um mercado interno dinâmico. Ao mesmo tempo, o próprio aviador
permanecia preso a uma rede de crédito instituída há muito tempo, cujas
condições faziam com que não fosse prudente que ele buscasse novos for-
necedores ou que fizesse negócio com produtores locais. Em consegiiência,
a maior parte dos bens manufaturados ou beneficiados que chegavam ao
interior da Amazônia provavelmente seriam “importações”, quer do próprio
país, quer do estrangeiro.
Poderia parecer seguro supor que a indústria e a agricultura da Amazônia
deixaram de prosperar durante a expansão da borracha porque a economia
Conclusão 299
extrativa drenava dos outros setores o capital e a mão-de-obra, Contudo, a
experiência de São Paulo, onde a produção de alimentos e a produção
industrial cresceram simultaneamente à economia cafeeira, alerta-nos contra
esse tipo de generalização. De fato, a Amazônia assistiu a certa expansão da
indústria e de determinados tipos de agricultura durante a expansão da
borracha; não obstante, em ambos os setores, o crescimento antes resultou
da demanda das cidades portuárias do que das do interior. Desse modo, a
escassez de capital e de mão-de-obra pode ter agravado a situação, mas O
problema essencial era a própria rede de aviamento, que circunscrevia a
demanda interna e tolhia eficientemente o crescimento tanto da agricultura
quanto da indústria.
Investigando os obstáculos à mudança na Amazônia, é imperativo que
se considere o componente político dos problemas econômicos da região.
Por carecer de poder político em nível nacional, a elite amazônica falhou
repetidas vezes em oferecer apoio a programas que visavam combater os
efeitos devastadores das flutuações de preços. Além disso, seus apelos por
ajuda de emergência logo após o colapso foram amplamente ignorados.
Uma vez que o papel do Estado é particularmente vital em áreas subdesen-
volvidas, onde as relações sociais e econômicas vigentes constituem obstá-
culos a mudanças estruturais básicas, a ausência de apoio por parte do
governo federal suprimiu uma via potencial para a transformação econô-
mica. Pelo contrário, a política em nível local funcionava de modo tal que
fortalecia a autoridade daquelas pessoas que, tanto em Belém como por
todo interior, possuíam os maiores interesses financeiros no sistema econô-
mico estabelecido.
Outro impulso possível à mudança econômica eta o investimento es-
trangeiro. Em várias economias de exportação da América Latina, o capital
estrangeiro foi responsável pelo financiamento e promoção de novas técnicas
de produção que, por sua vez, deram origem a transformações sociais fun-
damentais. Isto não implica que tais economias tenham, consegiientemente,
deixado de ser dependentes do mercado e do capital estrangeiros; em certos
casos, passaram a ser ainda mais dependentes? Não obstante, seria impos-
sível compreender as mudanças estruturais que tiveram lugar em certas
sociedades latino-americanas, em começos do século XX, sem levar em
conta o papel e o impacto do investimento estrangeiro e da inovação tec-
nológica.
Como vimos, o capital estrangeiro não desempenhou papel de impor-
tância na produção da borracha na Amazônia, uma vez que enfrentou a
resistência tanto da elite regional, quanto dos trabalhadores. E quando,
300 Conchusão
afinal, os grupos empresariais desenvolveram métodos eficientes de cultivo
da hévea — a ruptura tecnológica básica na produção da borracha bruta
—, aplicaram tais métodos nas colônias e protetorados europeus na Ásia,
onde os investidores estrangeiros tinham muito mais liberdade de movi-
mento e onde a população rural era muito mais fácil de arregimentar e
de disciplinar. Enfim, desenvolvendo métodos de cultivo da seringueira
e transferindo suas operações para o solo menos hostil da Ásia, os estran-
geiros procuraram conseguir, e com êxito espantoso, obviar os problemas
apresentados pela Amazônia e por sua população,
A disseminação das culturas de seringueira no Oriente marcou o brusco
final das décadas de prosperidade da Amazônia devidas à exportação. Os
anos que se seguiram assistiram a uma redução no ritmo e no nível da
atividade comercial da Amazônia e uma tendência na direção da diversifi-
cação da economia, à medida que a extração da borracha se tornava cada
vez menos compensadora. As composições econômicas e sociais tornaram-se
também mais flexíveis em consegiiência do aumento da produção para
subsistência e de novas atividades extrativas. Isso significa que, para muitos
habitantes rurais da Amazônia, os efeitos da decadência foram, de certo
modo, salutares, uma vez que, a partir dela, passaram a desfrutar uma maior
liberdade de movimento e um acesso mais fácil aos meios de subsistência.
Ao mesmo tempo, os remanescentes da elite regional voltaram-se para os
cargos burocráticos, empreendimentos urbanos, pequeno comércio, ou para
o negócio da castanha-do-pará — a fim de ganhar a vida e manter seu
status precário. Por mais três décadas, a vida na Amazônia continuou so-
bretudo nesse sentido; apenas nos anos seguintes à Segunda Grande Guerra,
sob o estímulo de uma intervenção federal maior e de um renovado interesse
do estrangeiro, é que o Norte do Brasil começou a sentir novas pressões
econômicas.
À luz dos recentes acontecimentos na Amazônia, parece particularmente
importante acentuar mais de uma vez que a intenção desse trabalho é ex-
plicar por que a expansão da borracha não fez surgir uma transformação
fundamental da sociedade amazônica. Ele não pretende, de modo algum,
lamentar que se haja “fracassado” em realizar a passagem para um modo
capitalista de produção durante a era da borracha. Pois, de fato, se algum
ensinamento se pode tirar da atual abordagem do desenvolvimento ama-
zônico — com sua atitude descuidada e fregiientemente deletéria para com
as pressões ecológicas, sua propensão a desalojar os habitantes tradicionais
e sua desconsideração pelos direitos dos grupos indígenas —., esse ensina-
mento é o de que o crescimento econômico no contexto do capitalismo
Conclusão 301
contemporâneo não é nada promissor para a Amazônia.? Se os seringueiros
que se opunham à mudança a fim de preservar uma certa aparência de
autonomia e seu modo de vida costumeiro, ou os comerciantes que lutavam
para preservar seu “arcaico” sistema de comercialização, parecem algo re-
trógrados ou equivocados, devem ter em mente que uma mudança descon-
trolada, em um meio ambiente tão frágil como o da Amazônia, pode ser
consideravelmente mais desastroso do que a mera estagnação.
Os que se têm manifestado mais criticamente sobre as políticas atuais
para a Amazônia têm sido rotulados, pejorativamente, de “idealistas” e de
“radicais; mas 0 que pode ser mais radical do que o capitalismo, com sua
desenfreada exploração dos recursos naturais e com a violenta separação
que promove entre os seres humanos e os meios de produção?” À esse
respeito, o período que sc refere este trabalho c a fasc atual do desenvolvi-
mento da Amazônia oferecem-nos instrutivo contraste. É bem verdade que
a era da borracha deixou a Amazônia substancialmente alterada em relação
ao período anterior à expansão, ao introduzir centenas de milhares de novos
habitantes, povoando os mais longínquos rincões da região, exterminando
culturas tribais inteiras na busca de mão-de-obra, e criando uma am pla rede
de elites comerciais. Contudo, se a marcha atual dos acontecimentos na
Amazônia não for sustada a tempo, podemos ter como certo que, tanto em
termos humanos como em termos ecológicos, o impacto será muito maior
e muito mais desastroso do que tudo o que a região presenciou no decorrer
da expansão da borracha.
